O adeus ao 'Pai do Xingu'
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de dezembro de 2002
Maurício Paredes Saraiva 
Cláudio, Leonardo e Orlando Villas Bôas. Desaparece agora de nosso convívio o último grande sertanista e indigenista que fez e marcou história. Nascido numa fazenda do interior de Botucatu (SP), em 1914, data que marca o início da Primeira Guerra Mundial, a luta de Orlando sempre foi pela paz, pela unificação e respeito às etnias indígenas.
A enfermeira Marina que o acompanhou toda a vida, saindo de um salão de beleza em São Paulo para o Xingu, relata que nos momentos livres que se limitavam a passeios pelas matas e jogos de cartas, acabou se apaixonando por ele, com o detalhe que o amado só notou isso quase dois anos depois. Marina contraiu malária quarenta vezes e Orlando, pelo menos, mais de duzentas durante 30 anos passados na selva.
Houve até um presidente da Funai que o demitiu por fax: parecia demasiado ou ilegal um salário de cerca de RS 1.500,00. Sob o clamor do mundo inteiro e manifestação de poucas vozes nacionais, o tal presidente conseguiu ser demitido na época do Carnaval.
Orlando, o que resta da Funai hoje é deplorável. Os altos burocratas mandam, desmandam, enveredam por políticas incorretas onde o índio não representa, de fato e de direito, a razão e existência do órgão e trocam favores e cargos em seus gabinetes em Brasília. O compadrismo impera.
As administrações, com raras exceções, capengas, estão cheias de homens de escritório que mal conhecem ou nada sabem de seus feitos e valor.
Os chefes de posto, que atuam junto, convivendo com os índios, estão relegados a segundo plano e mal-remunerados. Índios do Sul passam fome e muitos pedem esmola pelas cidades.
Orlando, com toda certeza, não era essa a realidade que você desejava aos índios, razão de existência e total dedicação.
Siga em paz e, esteja onde estiver, estará abrindo novos caminhos e trilhas no muque, na força de vontade e com a dignidade e ideais que sempre soube acalentar e levar adiante em vida.
MAURÍCIO PAREDES SARAIVA é funcionário da Funai em Londrina


