O achamento do Brasil - Walter Domingos
O achamento
do Brasil
Walter Domingos
O Brasil comemora neste dia 22 abril os 500 anos da chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral às posses de Portugal na América, segundo o Tratado de Tordesilhas, seis anos antes. Fala-se em descoberta, mas não foi isso que aconteceu. O ato de descobrir ocorre uma só vez. Não existe redescoberta. Por isso, dizer como dizem os próprios portugueses: o achamento do Brasil.
Muito papel e tinta já foi gasto neste assunto. Peças de teatro, poesias, crônicas, músicas para a comemoração do primeiro contato dos navegadores com a Ilha de Santa Cruz, que se tornou sucessivamente Terra de Santa Cruz e Brasil.
A esquadra chefiada por Cabral, que passou 10 dias na atual Porto Seguro, havia saído do Tejo em Portugal em 9 de março, com destino às Índias, onde fundaria uma feitoria. O Brasil foi nada mais que um ponto de parada. Mas tal foi a impressão que a pujança das terras, o povo que a habitava deixou a todos os componentes da esquadra, que o responsável pelas caravelas e por todos que estavam nela, foi enviado de volta um emissário com uma carta contando em detalhes tudo que se pôde descrever.
Depois da Primeira Missa, os navegadores deixaram na nova terra dois degredados e dois grumetes e partiram para o destino traçado inicialmente Calcutá (Índia). Somente um ano depois do achamento, o Rei D. Manuel avisou aos Reis Católicos da Espanha, que havia chegado às terras que por direito pertenciam a Portugal. Vê-se, portanto que não haviam intenções dos navegadores em chegar a esta região.
Um detalhe importante, que não se observou no início, e que hoje ainda não é levado a sério, como deveria ser, é a questão dos verdadeiros donos do Brasil. Por uma lógica, certamente se Portugal não tivesse colonizado esta região, alguém teria feito. Mas ninguém de bom senso pode negar que a maneira em que os habitantes originais da terra foram e continuam sendo tratados, constitui uma das maiores violações dos direitos humanos da história da humanidade, superada, talvez apenas pelo holocausto nazista. Uma invasão tão brutal quanto outras ocorridas ao longo da história, em que povos com menor poder bélico foram dominados e massacrados pelos invasores.
São quinhentos anos de achamento, por volta de 470 anos de colonização. A construção de uma sociedade com a presença de quase todas as raças que habitam a face do Planeta. Aqui estão as melhores terras do mundo, com climas, topografias, hidrografias, índice pluviométrico, amplamente favoráveis à produção de alimentos. Grandes riquezas naturais, no solo e subsolo. Ausência de desertos, secas prolongadas, terremotos, maremotos, furacões, vulcões ativos.
O País carece, entretanto, de cidadãos. Principalmente para ocuparem os cargos públicos eletivos. Precisa de gente que tenha a consciência de que a melhor qualidade de vida da sociedade depende de sua capacidade de governar sabendo eleger prioridades e atuando para fazer as coisas acontecerem. Gente realmente honesta que não precisa ficar batendo no peito dizendo que é, porque seus governados sabem, por seus atos.
Analisando a área administrativa nos Três Poderes e âmbitos (município, Estado e União), qualquer pessoa sabe que se conseguíssemos diminuir a corrupção pela metade e os administradores aplicassem bem o que deixassem de surrupiar, em menos de uma década alcançaríamos a um ótimo nível de desenvolvimento.
Este momento em que escolas, instituições diversas, o poder público e o povo comemoram os cinco séculos de achamento do Brasil, os políticos deveriam fazer uma reflexão buscando ser mais verdadeiros e pelo menos um pouco mais honestos, se não for possível ser totalmente.
- WALTER DOMINGOS é escritor em Mandaguari





