A apenas seis dias das eleições, o quadro geral, conjuntural, das campanhas eleitorais já permite antever algumas conclusões interessantes. Em nível federal, nota-se o seguinte: a maioria que elegera Fernando Henrique, em 1994, parece confirmá-lo à reeleição. Isso significa que, depois da estabilização da moeda, o principal propósito de governo - a reforma de Estado - continua ocupando lugar na preferência do eleitorado.
Reforma de Estado: a reforma da administração pública, da Previdência Social, a reforma fiscal e as privatizações, enfim, o Capítulo IV do livro ‘‘Mãos à obra, Brasil’’. Que começaram, começaram. Logo no primeiro ano do governo Fernando Henrique as propostas de emendas à Constituição foram enviadas ao Congresso. O problema - que, na verdade, não é um problema, é uma contingência! - tem sido a demora do processo legislativo. Esse fato municia o discurso oposicionista, é óbvio, e alimenta o descontentamento de parcela da população. Falta de costume democrático. Não sei se os descontentes se lembram, mas não vivemos numa ditadura. O Congresso não vive mais à mercê de fechamento nem os representantes do povo o medo da cassação, da prisão e do exílio. Hoje, nossa democracia não mais permite imposições, arbitrariedades. Hoje, o que deve prevalecer é o diálogo, o entendimento, em defesa e proveito do interesse público. Assim, as tais emendas foram submetidas à discussão, ao crivo da crítica, à votação. Algumas foram aprovadas, outras estão em andamento.
O acontecimento da última hora é a crise econômica mundial que colheu o País meio que com as calças na mão. Porque, fundamentalmente, aquelas reformas - repita-se: escolhidas pela maioria em 94 (e que agora estão sendo chamadas de ‘‘dever de casa’’)! - não foram feitas. Culpa de quem? A rigor, do próprio eleitorado, que, ao mesmo tempo em que se elegera Fernando Henrique e suas propostas, elegera também deputados e senadores que não conseguiram (ou não quiseram) corresponder às expectativas de mudança. Só mesmo muita ignorância e desinformação podem fazer alguém achar que a demora das reformas é culpa de um homem só.
Algumas emendas chegaram a ser votadas e não foram aprovadas. Outras, foram aprovadas com tanta modificação que desfiguraram completamente a intenção original. Os partidos de oposição fizeram seu papel, lógico (embora se possa dizer que, por vezes, foram mais oposicionistas do que patriotas). Agora, doeu mais foi ver parlamentares da própria situação votando traiçoeiramente contra (alguns do próprio partido dos tucanos, e que ainda têm a coragem de, permanecendo no PSDB, lançarem-se candidatos à reeleição! Não é, sr. Flávio?).
Apesar de tudo, o leme do governo federal se mantém no curso das reformas. As propostas do presidente-candidato, apresentadas ao pleito deste ano, estão vinculadas à consolidação do plano de estabilização monetária e a providências estruturais que não mais nos fragilizem perante turbulências globais.
Enquanto isso, o principal candidato da oposição tem afirmado, desde o início de sua campanha, que não fala de política econômica antes do dia 1º de janeiro de 1999. Limita-se a dizer que é preciso ‘‘mudar o modelo, mudar o modelo’’, mas não diz claramente, para qual modelo mudar, nem como faria para encaixar tal modelo no sistema mundial.
O presidente Fernando Henrique, em que pese à sua candidatura, tem mantido a postura de estadista. Não tem medido palavras e ações para defender a economia nacional, investindo na transparência do discurso, falando a verdade, sem deixar de aventar até hipóteses de, se for necessário, aplicar remédios amargos no combate à crise. A esta altura do campeonato, convenhamos, isso não é coisa que um populista fizesse.
O resultado foi que o concurso polarizou-se entre os que querem acelerar as mudanças e os que querem brecá-las.
Acontece assim também na disputa pelo governo estadual, no Paraná. O governador-candidato se propõe a continuar o projeto cuja proposta fora escolhida no último pleito. Já o candidato da oposição promete ‘‘rever’’ (desmontar?) todo o caminho andado até aqui - dos contratos com as indústrias estrangeiras ao processo de privatização do Banestado.
Felizmente, tudo indica que a maioria está querendo é acelerar mais.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná em Curitiba

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