Os parlamentares são os que criam as leis, então eles próprios decretam seus vencimentos. Alterar essa lei e baixar os níveis, não se pode afirmar que é impossível mas com certeza muito difícil. Mais fácil o camelo passar pelo buraco da agulha. Primeiro, seria preciso que a iniciativa partisse de um deles, restando acreditar-se que os pares aprovariam. Uma quase utopia. Outro não é o nome do pródigo autofavorecimento salarial senão imposição abusiva. Os deputados do Paraná (estaduais e federais) ganham, individualmente, 70 vezes mais que o salário médio do comum dos trabalhadores brasileiros e 207 vezes mais que o carregador de pedras da categoria salário mínimo. O fato, que não constitui novidade para ninguém mas é sempre um abuso digno de rememorar, foi publicado ontem neste jornal e mostra o quanto consome por mês um deputado: R$ 53.600. Mas não apenas isso, porque o custo de manutenção da estrutura instalada eleva a soma. Um descalabro, e isso explica o ''espírito cívico'' daqueles que se lançam em campanhas eleitorais, ressalvadas as pouquíssimas exceções. Fossem os parlamentares operosos defensores dos interesses do povo, mas a grande maioria passa o mandato em brancas nuvens e, como se diz dos times esportivos que disputam já sem chances, cumprem tabela. Raríssimos os que têm responsabilidade pública e se conscientizam da importância da função e do quanto são devedores à sociedade pelo que haurem dela em forma de ganho e pelo quanto a frustram em sua expectativa. Um deputado não precisa consumir tanto dinheiro assim, ademais num país de população carente. Com o dispêndio mensal dos 84 deputados paranaenses (54 estaduais e 30 federais), que perfazem 84 vezes R$ 53.600, seria possível construir por mês 450 casas populares de R$ 10.000 cada. E se o gasto individual deles fosse apenas reduzido para 1/4 (R$ 13.400), sobraria dinheiro para 402 casas/mês. Apenas comparações, porque um sistema governamental democrático precisa ter parlamentares e gastar com eles, mas não tanto. Também não seria necessário um tão numeroso contingente, porque metade deles bastaria. Não bastassem as sessões regimentais, eles convocam as extraordinárias, que assim o ganho sobe, embora nada de grande importância se propõe e se discute, nem durante o correr do período regulamentar e nem nessas reuniões extras. Esse excessivo gasto é uma afronta aos cidadãos.

mockup