O absolutismo caboclo

Miguel Ignatios
A briga entre os senadores Antônio Carlos Magalhães e Jader Barbalho, com a habitual troca de acusações e baixarias, além de ofender o Senado, mostra o desdém que parte de nossos políticos, nem todos felizmente, ainda têm em relação às instituições brasileiras e à democracia. Herdeiros das capitanias hereditárias, onde seus ancestrais detinham poder absoluto, de vida e de morte, sobre os súditos, nossos absolutistas caboclos comportam-se na vida pública como se estivessem resolvendo uma desavença de limites em seus domínios territoriais.
Instituições como Câmara dos Deputados, Senado, Assembléias Legislativas estaduais ou Câmaras Municipais são vistas por esses políticos apenas como extensões naturais dos seus interesses pessoais. Exemplos recentes de tal comportamento não faltam, a começar pela lamentável lavagem de roupa suja, no plenário do Senado, entre ACM e Jader Barbalho. Se em público, e na presença de seus pares e da mídia, agem da maneira como agiram, ficamos a imaginar o que são capazes de fazer em suas ‘‘capitanias hereditárias’’.
Mas sejamos realistas: o Brasil que esses senadores conhecem é a Bahia e o Pará, respectivamente. O que se espera deles é que, com a autoridade de que são detentores, venham a público, de maneira franca, expor seus pontos de vista para que a nação faça seu julgamento e tenha uma opinião definitiva sobre esse nada construtivo entrevero.
Vale lembrar também o escândalo dos ‘‘Anões do Orçamento’’, os quais colocaram recursos públicos no Orçamento Geral da União para as respectivas áreas que os elegeram; e o envolvimento de alguns deputados com as diversas máfias do narcotráfico internacional e suas congêneres locais. Esses dois episódios ilustram à perfeição como parte de nossos políticos encara a coisa pública: uma oportunidade para exercer seu nepotismo, na melhor das hipóteses; e para ampliar seus poderes regionais, numa cadeia de nomeações e trocas de favores.
Em uma palavra: para tais políticos, o País, a Nação e as instituições democráticas não passam de mera extensão de interesses patrimonialistas particulares ou assistencialistas com finalidades eleitorais.
Alguns ingênuos já têm a explicação na ponta da língua: esse tipo de comportamento de parte de nossos políticos só é possível nos Estados mais atrasados das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Pura ilusão! Aqui, em São Paulo, na maior cidade do Hemisfério Sul, teoricamente mais politizada e mais informada e, portanto, menos exposta à manipulação dos absolutistas caboclos, 36 vereadores (José Izar, mais os 35 amigos, que, segundo suas palavras, ‘‘tenho nesta mão’’) insistem, à revelia da opinião pública, e num cinismo vergonhoso, em sustentar um prefeito completamente desmoralizado.
Mas, afinal, por que agem dessa maneira esses 36 vereadores? Simplesmente porque eles são a versão urbana dos donatários das capitanias hereditárias estaduais. Agem, na prática, como ‘‘barões’’ do Cambuci, ‘‘marqueses’’ de Sapopemba, ‘‘viscondes’’ de Santo Amaro ou simplesmente como chefetes da Sé e das demais administrações regionais.
É preciso erradicar de uma vez por todas tais comportamentos da vida pública brasileira. E isso só se faz com investimento em educação básica e com a criação de mecanismos que permitam ao eleitor cobrar e acompanhar de perto a trajetória e as votações do vereador, do deputado estadual, do deputado federal e do senador em quem votou. Agora é chegado o momento da participação organizada da sociedade civil!
Explosões iradas do tipo ‘‘vamos fechar a Câmara ou o Senado’’ nada acrescentam à inexperiente e fraca cultura política brasileira. Historicamente, esses ‘‘atalhos’’ ditatoriais têm servido, muito mais do que os períodos democráticos, apenas aos interesses dos nossos absolutistas caboclos de plantão, das cidades ou das ‘‘capitanias’’.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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