O abraço dos afogados - Maria Lucia Victor Barbosa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de outubro de 1998
Maria Lucia Victor Barbosa 
Podem falar que capitulamos e estamos dando o abraço dos afogados, mas isso não é verdade. Estas foram as palavras do candidato à Presidência, Ciro Gomes (PPS), referindo-se à sua momentânea aliança com o outro candidato da oposição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É que depois de ataques recíprocos durante toda a campanha, eles fizeram nesta semana que antecede a eleição uma trégua tardia, e deram entrevista coletiva como dois bons e velhos amigos. Como tal apareceram irmanados no programa eleitoral, pedindo ao indiferente eleitorado uma chance de segundo turno. Isto porque os opositores do presidente e candidato Fernando Henrique se baseiam na falsa premissa do debate entre presidenciáveis como elemento intrínseco da democracia. Aproveitaram ainda para criticar o chamado uso da máquina, e a quase censura praticada pelo governo, com a conivência da mídia. Novamente Ciro Gomes traçou um futuro negro para o País, sem contudo apresentar soluções, e concluiu que uma grave crise de legitimidade atingirá o governante que sair eleito. Paradoxalmente, porém, disse que não chegava a afirmar que existia ilegalidade na eleição: Tenho resistências a esse raciocínio porque, com toda a deformação no processo, os cidadãos ainda são livres para votar.
No discurso dos dois ficou apenas a impressão de que se está mesmo diante do abraço dos afogados, ou da vontade evidente de ganhar no tapetão, lançando suspeitas sobre a ilegalidade da eleição e criando factóides que inviabilizem o pleito. Parece que Ciro Gomes e Lula não conseguem admitir que numa democracia é o eleitor que decide se vai ou não haver segundo turno, e quem fica ou não fica com o poder.
Outro aspecto que os dois parecem ignorar, refere-se à transformação do eleitor de ilusões em eleitor de resultados, ou seja, aquele que confia em quem faz alguma coisa de positivo e de concreto, e desacredita dos que apenas prometem coisas fantasiosas ou tecem eternas críticas que nada acrescentam às soluções dos problemas.
Ora, nesta eleição o eleitor de resultados aparece com bastante evidência com relação às candidaturas à Presidência, e as relativas aos governos dos estados. E que por conta da inédita possibilidade no Brasil de reeleição para cargos do Executivo, ficam mais próximos do eleitorado os aspectos positivos de determinadas administrações, parecendo, então, que atualmente o povo prefere não trocar o certo pelo duvidoso.
Também para os postulantes ao cargo do Poder Legislativo, que sempre contaram com a figura da reeleição, está prevista a recondução de um número significativo de parlamentares, sobretudo de deputados federais. Entretanto, como não há conhecimento por parte da população das atividades dos parlamentares, ignorando-se quase completamente se estes foram competentes em termos de projetos relatados, apresentados ou aprovados, ou mesmo se estiverem presentes ou ausentes das respectivas sessões, pode-se dizer que os critérios dos eleitores que elegem seus representantes do Legislativo são diferentes daqueles com que escolhem postulantes aos cargos do Executivo. Normalmente se vota num deputado conhecido, prevalecendo neste caso apenas critérios de amizade, confiabilidade ou admiração. Ou então, elege-se um deputado capaz de empolgar por conta do marketing bem feito ou da distribuição generosa de dádivas e benefícios. De todo modo, continua no Brasil o fato de que candidatos a cargos legislativos são os coadjuvantes da política, enquanto os do Executivo são os superstar.


