O abismo entre o povo e o Senado
Citando um caso mais recente, na Alemanha, um presidente da república renunciou ao cargo em decorrência de escândalos de favorecimento político. Lembrando outros exemplos recentes, na Inglaterra, um parlamentar também renunciou após ser acusado de falsificar faturas de despesas e, nos Estados Unidos, outro deputado acabou dizendo adeus à vida pública por ter deixado vazar na internet uma foto dele, sem camisa, supostamente enviada para um site de namoro. No Brasil, o que acontece com um político cujo nome remete a escândalos sexuais e está sendo acusado pelo Ministério Público de três crimes? Ele acaba "promovido" a presidente do Senado Nacional e ainda recebe os cumprimentos da presidente da República por meio de um telefonema.
Renan Calheiros, do PMDB de Alagoas, foi eleito anteontem para dirigir o Senado, cinco anos depois de ter renunciado à presidência da mesma Casa para escapar da cassação. Na época, ele era acusado de pagar pensão à filha que teve com a ex-amante, Mônica Veloso, com o dinheiro do lobista de uma empreiteira. Como acontece em um país acostumado com escândalos políticos, a amante de corpo escultural ainda foi capa da Revista Playboy.
O Senado, que tem a responsabilidade de zelar pelos direitos constitucionais do povo, ignorou um protesto digital com 320 mil "assinaturas" que circulou na internet e elegeu com 56 votos o político acusado pela Procuradoria-Geral da República dos crimes de falsidade ideológica, uso de documento falso e peculato (usar cargo público para obter vantagem). Se a indicação de um nome tão controverso para disputar a presidência do Senado já foi um desrespeito a um País que acaba de aprovar a Lei da Ficha Limpa, a eleição do peemedebista para comandar a Casa deve ser considerada um atraso para a democracia brasileira. É evidente a discordância entre os anseios da população e os interesses dos senadores. Se os congressistas não se escondessem atrás do voto secreto, o resultado certamente seria diferente.





