O abate da Copel
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 14 de agosto de 2001
Padre Roque Zimmermann 
Duas notícias recentes não despertaram maior interesse entre as pessoas e nem da im prensa. Foram tratadas como questões nor mais, do cotidiano, muito embora escondam em seus porões polêmicas memoráveis. Tanto uma como outra versaram sobre o lucro alcançado por duas empresas que assumiram o controle de serviços prestados à população. Vale a pena trazer os fatos novamente à discussão como forma de lançar mais luz sobre graves decisões que são tomadas no Paraná, pelo governo e pela Assembléia Legislativa.
No final de julho foi publicado o lucro alcançado pelo Banco Itaú referente ao primeiro semestre de 2001. Mais do que os números absolutos (R$ 1,457 bilhão), a notícia destacou o percentual do crescimento em relação ao mesmo período de 2000 82,12% a mais. Ou seja, o banco quase dobrou o seu lucro de um ano para o outro.
No início deste mês foi divulgado o desempenho de algumas empresas paranaenses que compõem um ranking elaborado por um instituto de pesquisas econômicas com o objetivo de classificar as 500 maiores empresas da Região Sul do Brasil. Entre elas aparece a Rodonorte, responsável pela administração e operação de um trecho de 560 quilômetros de rodovias que fazem parte do Anel de Integração do Paraná. O lucro líquido da Rodonorte em 2000 foi de R$ 25 milhões, o que dá uma média de quase R$ 45 mil por quilômetro. A receita total do ano passado teve um crescimento de 70% em relação à anterior.
Não é nossa intenção analisar neste momento se os rendimentos obtidos pelas empresas são justos ou não. Nem tampouco questionar sobre a qualidade dos serviços prestados por ambas à população e a devida correlação com o lucro por elas conseguido. O que é importante relembrar e destacar é que as duas empresas assumiram patrimônios construídos com o dinheiro de impostos dos paranaenses e dos brasileiros e agora proporcionam altos lucros para umas poucas pessoas.
No caso do Banestado, vendido ao Itaú, o Paraná, além de transferir dinheiro para o setor privado, privou-se de seu principal instrumento de financiamento e fomento à produção. Em relação às rodovias, se o Estado tivesse as praças de pedágio sob a sua administração e aplicasse os valores recebidos na conservação de todas as rodovias paranaenses, com certeza não veríamos mais o povo plantando bananeiras nos buracos das estradas. Pois haveria dinheiro suficiente não só para conservar as rodovias existentes como para duplicar as mais movimentadas e pavimentar outras que até hoje são o drama de regiões inteiras em época de chuvas.
O governo Lerner vai vender a Copel. Até já marcou data para o leilão, 31 de outubro próximo. Também agora o governo do Estado encontra um sem-número de razões para dar a maior e mais importante empresa do Paraná para uns poucos ricaços assim como o fez ao vender o Banestado, e ao entregar as principais rodovias para as empreiteiras.
Certamente, diante de mais esta tragédia para o povo paranaense, no ano que vem estaremos assistindo a Copel fazer parte de algum ranking de empresas com lucros fantásticos. É bom lembrar que apesar de existirem tarifas diferenciadas para tornar a energia mais barata para as famílias de baixa renda, mesmo assim a empresa hoje gera bons lucros. Uma pesquisa feita pelo Idec em favelas de São Paulo, onde já ocorreu a privatização da distribuição da energia elétrica, mostrou que as contas subiram. No Paraná não deverá ser diferente. Pois não é do feitio do neoliberalismo abrir mão de lucros para fins humanitários.
Além deste aspecto social, o povo não pode mais aceitar calado e inerte que o resultado das riquezas construídas através do seu trabalho vá parar nas mãos de uns poucos bem-situados. E o que é pior: com a intermediação de governantes que foram alçados à condição de administradores destes bens, mas que usam de sua condição para dilapidar o patrimônio público.
- PADRE ROQUE ZIMMERMANN é deputado federal pelo PT-PR e professor universitário licenciado em Ponta Grossa


