Nuvens cinzentas no céu eleitoral
Nuvens cinzentas no céu eleitoral
Gaudêncio Torquato
A pergunta mais constante da semana é: Fernando Henrique corre o risco de perder a eleição? A resposta não pode ser outra: em política, tudo é possível. A questão se apresenta diante da queda do presidente nas pesquisas de intenção de voto. A quatro meses da campanha, o que se pode dizer é que a situação de FHC tanto pode melhorar quanto piorar. Há quem afirme que suas chances de perder estão, hoje, por volta de 15%. Para perder, o Governo deveria continuar estático diante do quadro do cenário social, degradado a partir dos seguintes eventos: compra de votos de deputados do Norte, incêndio em Roraima, seca no Nordeste, saques e ações do MST, epidemia de dengue, mortes de Luis Eduardo e Sérgio Motta, sucateamento dos hospitais públicos, greve nas universidades federais, as claudicantes reformas administrativa e da Previdência, a crítica sobre os vagabundos e a desastrosa declaração de que transportar alimentos para o Nordeste é coisa cara.
A campanha presidencial, por seu lado, esbarra na falta de um comando forte e unificado. O desaparecimento de Sérgio Motta deixa a cúpula confusa e desarticulada. Morreu, há meses, um dos melhores profissionais de marketing do país, Geraldo Walter, o cérebro político. Há quem não goste da cabeça exclusivamente publicitária de Nizan Guanaes. Nos bastidores, chovem as críticas contra Eduardo Jorge, o escondido assessor que chefiará a campanha. Diz-se que não tem jogo político e age com mão técnica. E, para arrematar a aura negativa, já se combate abertamente o ego superinflamado do presidente, que estaria cercado de áulicos. Os políticos, por sua vez, queixam-se de Fernando Henrique por não cumprir compromissos.
Do lado das oposições, Lula se anima com a subida de três pontos nas pesquisas, mas enfrenta sérios problemas: desunião nas esquerdas, rebeldia do PT no Rio de Janeiro, ausência de um projeto nacional. Ele sabe que as oposições, historicamente, crescem nos meses de maio e junho. Na mesma época, em 94, Fernando Collor caia nas pesquisas. Lula cresce nas capitais, na região Sudeste e já passa FH no Rio Grande do Sul. Trata-se de conjuntos eleitorais mais racionais. Uma ameaça. Os centros racionais costumam influenciar as margens periféricas. Mas o maior adversário de Lula é ele mesmo: bate em velhas teclas, profere discursos surrados, faz apenas diagnósticos e ainda não limpou de todo a carranca revolucionária de quem quer virar a mesa.
Para estabilizar-se, FH precisa sair do pedestal. Organizar ampla mobilização, agilizar a administração, que parece acorrentada e presa em compartimentos. Falta ao Governo uma linguagem harmônica. A estagnação toma conta dos programas. Os ministros tocam em bandas de música diferentes. A seca do Nordeste precisa ser enfrentada com mais determinação e programas de longo alcance. Mutirões passageiros dão origem à sequelas, mandonismo e apadrinhamentos. A tensão social se espalha, sob a batuta do MST. É um perigo querer desprezar a força desse movimento, até porque o ambiente social de insegurança lhe dá guarida.
Começa-se a pensar num candidato alternativo, com conceito de honorabilidade, autoridade e determinação, para enfrentar a guerra eleitoral, caso a tensão social cresça, Lula suba mais ainda e FHC despenque. Em São Paulo, à boca pequena, o nome de ACM começa a despontar como um perfil adequado para o momento. Ele é inelegível por haver assumido a presidência? Não. Guarda pareceres dizendo que pode entrar no páreo. Mas essa é uma hipótese bem remota.
- GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista e professor titular da USP





