Nuremberg e a globalização - J. Roberto Whitaker Penteado
Nuremberg e a globalização
J. Roberto Whitaker Penteado
Eu era garoto e a revista O Cruzeiro tinha um jornalista chamado David Nasser, de quem muitas pessoas diziam cobras e lagartos, como, aliás, diziam de O Cruzeiro e dos Diários Associados. Nasser, contudo, era um magnífico redator e repórter como poucos. Não me recordo exatamente de quais os artigos, mas lembro de que os lia com admiração, certo de que jamais conseguiria escrever um texto redondo, perfeito e combativo como aquele.
Vem-me à memória o jornalista de O Cruzeiro, em função das muitas menções dos julgamentos de criminosos de guerra, em Nuremberg, ao final da Segunda Guerra Mundial. Na época, Nasser escreveu um livro chamado Falta Alguém em Nuremberg. No texto, e no contexto, quem faltava era Filinto Muller, chefe de polícia e pequeno Goebbels do pequeno ditador que tivemos. De fato, nossa ditadura acabou, com o fim da guerra, mas tudo ficou igual e Vargas e Muller voltariam, um como presidente e outro como senador, eleitos pelo povo. Morreriam ambos de mortes violentas, mas nenhuma das duas impostas como castigo pela sociedade.
A noção de crimes contra a humanidade não pegou de imediato e, nos últimos 40 anos, alguns dos déspotas mais sanguinários que o mundo conheceu gozaram suas confortáveis aposentadorias escancaradamente, em luxuosos resorts do Primeiro Mundo, sem que as pessoas e a imprensa se indignassem.
O episódio Pinochet parece indicar que isso pode mudar. E não é só este caso. Também é exemplar o que aconteceu em Timor Leste (ou Loro Sae, como é chamado pelos seus habitantes). É bem verdade que as tropas da ONU chegaram bem depois da hora, quando pouco restava em pé no pequeno país que fala o nosso idioma e vai seguir nosso currículo escolar. E desde 1975, os indonésios vinham massacrando os timorenses, pelos imperdoáveis crimes de cultivar a diversidade e desejar a autonomia. Mas em outros tempos, a Indonésia teria arrasado o Timor e, logo, logo, ninguém falaria mais no assunto.
Sorte dos timorenses, também, que a Otan tivesse se envolvido, há tão pouco tempo, no fiasco da Iugoslávia. Não fosse isso e os americanos não teriam pressionado Jacarta. Por enquanto, são apenas indícios e de grande fragilidade de uma das possíveis consequências positivas da globalização. A de que certos princípios éticos tenham mais força do que a noção de soberania ou a própria idéia de nação.
Um amigo meu, jurista, reclama que o que está acontecendo com Pinochet é ilegal e só é possível porque contrapõe países do Primeiro Mundo às sociedades atrasadas da América Latina. Tem certa razão, mas o que aconteceu em Timor prova que não precisa ser sempre assim. E a história recente de países como o Chile, a Argentina e mesmo o Brasil, mostra que muitas nações soberanas tendem a ser condescendentes com seus carrascos e tiranos.
O cientista político Renê Dreifuss tem proposto uma subdivisão do fenômeno denominado de globalização que pode ajudar a pôr o raciocínio em ordem. Para ele, existem globalização, mundialização e planetização. A globalização é um movimento econômico, em que as forças do mercado buscam maximizar os ganhos de seus protagonistas (sobretudo corporações multinacionais e agentes financeiros) sobrepondo-se às fronteiras territoriais. Como tal, seria um movimento neo-imperialista e homogeneizante.
Mas a mundialização é centrífuga, em oposição à força centrípeta globalizante: a nova revolução de expectativas crescentes abre os caminhos da comunicação tecnologicamente democratizada em mais de um sentido, de forma pluralizante. Assim, os padrões culturais e éticos não teriam características hegemônicas ditadas pelos países dominantes.
A planetização, finalmente, é o sentimento novo, de pertencimento a uma entidade planetária, que transcende as antigas fronteiras políticas na necessidade de sobrevivência do próprio planeta Terra, ameaçada pelas noções antigas e egoístas de desenvolvimento que depende da exploração de recursos finitos. (Tema esse, aliás, muito bem abordado por outro cientista político brasileiro, José Augusto Padua, há uma semana).
Seria bom se essas idéias tivessem força suficiente para atropelar e substituir o egoísmo míope da maioria dos políticos que infelizmente ainda detêm o poder no mundo.
- J. ROBERTO WHITAKER PENTEADO é professor e dirigente universitário no Rio de Janeiro





