''Nunca pensei que isso fosse acontecer com minha família''
''Da última vez em que o pai das minhas filhas me ligou, eu disse a ele: 'Cara, você era a pessoa em quem eu mais confiava nesse mundo'. Eu nunca conseguiria pensar que uma coisa dessas fosse acontecer na minha família. Sinto ódio, raiva. Não tem outro nome pra isso''. O relato é de Simone (nome fictício), moradora da região central de Londrina.
Ela sabe bem a forma como o abuso sexual despedaça um lar: até o ano passado, seus três filhos, duas meninas e um menino, foram submetidos à violência pelo próprio pai. A vítima preferencial era a filha mais velha, hoje com 15 anos, que desde o sete sofria o drama (Simone não revela a idade dos outros dois filhos por medo de que seu caso possa ser identificado).
''Eu não desconfiava de nada. Nenhuma outra pessoa suspeitava, nem minha vizinha, com quem convivi por anos e que estava sempre em casa, como uma parente. Ele era um ótimo pai. Severo, às vezes até agressivo, mas cuidava bem de todos. Só depois que fui saber que tanta rigidez servia para esconder o que ele andava fazendo'', conta a dona de casa.
Simone só foi atentar para os indícios da violência quando já havia sido alertada sobre a situação. ''Depois que soube de tudo comecei a lembrar que, quando ele (o pai) chegava em casa, as crianças ficavam muito tensas, quietas. Bastava ele sair e elas continuavam brincando'', diz a mãe. O drama só acabou no final do ano passado.
''Minha filha mais velha apareceu grávida, de um namoradinho. Eu disse a ela que precisávamos contar para o pai. Ela se recusava, dizia que não iria contar de jeito nenhum. Eu fiquei desconfiada. Eu a mandei, junto com os dois irmãos, para a casa da minha mãe, em outra cidade do Paraná'', lembra Simone. Ela diz que não se esquece do dia em que soube de tudo.
''Minha mãe me telefonou numa quinta-feira e disse: Simone, você precisa vir pra cá. Mas por que? O que aconteceu?, perguntei. Você não sabe o que está acontecendo dentro da sua família. Vem pra cá''. Eu cheguei num sábado e ela me disse o que havia acontecido. Entrei em choque'', lembrou Simone. ''Eu trabalhava até tarde, e também era meio fechada com minha filha mais velha. Minha mãe, mais experiente, conseguiu perceber tudo''.
A menina de quinze anos teve a criança no início de 2003 e está morando com o namorado. Segue em atendimento no programa Sentinela. Os irmãos também estão sendo acompanhados. O pai, com quem Simone nunca se casou (estavam ''amigados'' há 17 anos), fugiu logo que a verdade veio à tona. ''Hoje, nenhum dos meus filhos consegue falar dele chamando-o de pai. E ficam perturbados quando alguém toca no nome dele. Pela minha filha, não denunciei nada para a mídia. Não digo que meus meninos superaram a situação, mas estão quase lá. Sei que vai ser impossível esquecer'', admite Simone.





