Nunca lamentei minha decisão - Mikhail Gorbachev
Nunca lamentei minha decisão
Mikhail Gorbachev
O Muro de Berlim não desabou num só dia, nem sequer numa só estação. A crise na Alemanha Oriental começou quatro anos antes dos dramáticos acontecimentos de 1989, a muitos quilômetros de distância com a perestroika e a democratização na União Soviética.
Quando o descontentamento na Alemanha Oriental se transformou num movimento de massas, o povo dali sabia que minha política da liberdade de escolha não era só um eslogam publicitário. Sabia que não se repetiriam os acontecimentos da Primavera de Praga de 1968, e os tanques do Pacto de Varsóvia não interviriam. Portanto eles (os alemães-orientais) exerceram sua liberdade de escolha derrubando o Muro de Berlim.
Nunca lamentei minha decisão. Resistir à vontade de um povo para salvar o regime condenado de Erich Honecker teria sido inútil. O emprego da força poderia ter resultado num enorme banho de sangue afinal de contas, o desejo da unificação havia tomado conta de milhões de alemães no outono de 1989 e poderia ter levado a um confronto militar entre as superpotências.
Mesmo que pudéssemos evitar isso, intervir teria significado negar os princípios básicos de minha filosofia política. A ação militar teria arruinado a confiança que começava a aumentar em relação ao Ocidente e aos Estados Unidos e teria causado o corte do vital apoio econômico e político externo à perestroika. E teria significado disparar contra pessoas comuns, o que contrariava meus princípios morais. A guerra fria poderia ressurgir e minha posição política como um todo cairia em descrédito.
Na ocasião, ninguém argumentava de outra forma. Nenhum dos membros do Politburo e nenhum dos altos líderes soviéticos sugeriu o emprego da força. Ninguém recomendou que tropas soviéticas na Alemanha Oriental fossem mobilizadas. É verdade que vários generais discutiram reservadamente tal possibilidade e abertamente me criticaram depois, por não ter mandado tropas. Mas na época nem o marechal Yazov, o ministro da Defesa e futuro líder do golpe, pressionou a favor da intervenção.
O que havia lá que justificasse a luta? O comunismo como os inventores da teoria a imaginaram não existia em nenhuma parte: nem na Europa Oriental, nem na URSS. O que existia era o socialismo stalinista. Este sistema havia-se esgotado e estava condenado ao desaparecimento.
Já em 1988, insisti que o partido abandonasse o monopólio que exercia sobre o poder, a propriedade, a ideologia. A intenção era liquidar as estruturas do poder político que haviam governado a Rússia desde os tempos de Stálin.
Assim que as forças da glasnost e da democracia foram liberadas, funcionaram de modo imprevisível. Elas foram decisivas para impulsionar mudanças no Leste Europeu, mas não posso negar que essas mesmas forças incentivaram tendências separatistas nas repúblicas nacionais da URSS.
Agora não vejo nenhuma ameaça à segurança russa por causa do ingresso de países do Leste Europeu na Otan. Mas, antes, sua compreensível aversão ao irmão mais velho do Leste havia-se transformado na política de rejeição a toda relação importante com a Rússia. Isso não é bom para a Rússia, nem para o Leste Europeu, nem para o mundo.
- MIKHAIL GORBACHEV é ex-presidente da URSS e está lançando um novo livro, On My Country and the World





