Números embolados
O fator Maluf embaralhou a contabilidade do governo no Congresso. O PPB, partido de Maluf, possui bancada razoável, capaz de desequilibrar as projeções de votos em favor da emenda da reeleição. São, ao todo, 95 votos - 90 na Câmara, cinco no Senado.
Até a eleição paulistana de prefeito, Maluf e PPB eram aliados do governo. Não havia sinais de divergências e tudo caminhava de vento em popa. Maluf parecia conformado em confinar seu projeto político ao âmbito de São Paulo. Apoiou a reeleição no nascedouro, na expectativa de se beneficiar dela, ganhando mais um mandato na prefeitura.
Aí começaram as burradas estratégicas do governo. Tudo foi feito com tal método e constância que é difícil supor que tenha havido casualidade. A recapitulação do processo de rompimento do governo com Maluf poderia constar de um manual para políticos intitulado Como transformar um aliado em adversário. Assinado: Sérgio Motta.
Os choques começaram no início do ano, quando o governo decide, por pressão do PSDB paulista, adiar a votação da reeleição para não ter que beneficiar os atuais prefeitos. O problema não eram os prefeitos, mas Maluf. Isso foi dito sem reservas. Foi o primeiro atrito.
Maluf veio a Brasília, esteve com Fernando Henrique, que tentou convencê-lo de que não havia nada contra ele, que ele era ótimo e coisas do gênero. Maluf fez também seus rapapés de costume e ambos fingiram que acreditaram um no outro, o que, entre os políticos, é mais que uma coreografia: é um condicionamento pavloviano.
O atrito seguinte aconteceu quando o governo decide lançar a candidatura de José Serra a prefeito, com o objetivo de pôr fim ao reinado malufista na capital paulista. Nesse momento, os malufistas sentem-se fora do governo e encaram a disputa local como o primeiro round da guerra da sucessão presidencial. Ficou, desde então, implícito que se Maluf fizesse o seu sucessor seria o candidato do PPB à Presidência da República. Não deu outra.
Naquele momento, porém, ainda havia espaço para negociar. Maluf disse a mais de um parlamentar com trânsito palaciano que toparia trocar a reeleição de Fernando Henrique pela eleição de governador em São Paulo. Ele apoiava Fernando Henrique a presidente e Fernando Henrique o apoiava para governador. Nenhuma resposta. Ou por outra, a resposta veio a seguir na forma de um trator, chamado Sérgio Motta.
Desembarcou em São Paulo, disposto a ressuscitar a candidatura José Serra, lanterninha na campanha. Nada feito. Além de não ressuscitá-la, matou a aliança com o PPB. Maluf elegeu Pitta prefeito, entrou no STF com processo contra Motta (por calúnia, injúria e difamação), está alugando casa no Lago Sul para cuidar de perto da tropa do PPB e examina alianças com PT, Itamar Franco e Sarney contra a reeleição.
Em suma, embolou o meio de campo.





