Duas vezes por dia a professora Ivone Guerreiro, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), precisa aplicar insulina para controlar seu diabetes. A aplicação começou há cinco anos, depois de 11 em que ela conseguiu controlar a doença somente com dieta e exercícios físicos. Os cuidados diários têm razão de ser: o diabetes é uma doença perigosa e se não estiver controlado pode causar insuficiência renal e perda de visão, além de males cardiovasculares e neurológicos. No Brasil são cerca de 10 milhões de diabéticos, dos quais metade não sabe que tem a doença. Segundo a Organização Mundial de Saúde o número de pessoas com a doença deve dobrar em todo o mundo até 2025.
Uma das novidades no controle do diabetes foi lançada no Brasil esta semana, o medicamento Lantus, insulina glargina. A maior vantagem dessa insulina é a ação prolongada de 24 horas, que necessita de apenas uma aplicação diária. Segundo o médico Freddy Goldberg Eliaschewitz, coordenador do Núcleo de Terapia Celular e Molecular da Universidade de São Paulo (USP), outra vantagem da nova insulina desenvolvida para imitar a secreção natural é que ela não apresenta picos de ação. Isso reduz, segundo o especialista, os episódios de hipoglicemia.
A hipoglicemia, redução excessiva de açúcar no sangue, é especialmente problemática se ocorrer durante o sono, pois a pessoa pode não perceber e deixar de tomar as providências apropriadas. Durante um evento hipoglicêmico, a pessoa pode apresentar tremores, sudorese, dormência nos lábios, palidez, taquicardia e confusão. ''O tratamento fica mais previsível, mais seguro, você sabe a dose e tem o resultado esperado'', avaliou Eliaschewitz. Segundo pesquisas, o medicamento provoca 40% menos episódios de hipoglicemia que as outras insulinas, inclusive a NPH (neutral protamine hagedorn), que tem duração de 12 horas.
O controle glicêmico é a chave para prevenir complicações do diabetes. Ou seja, quem é diabético precisa manter um nível de glicose, ou açúcar, no sangue, em valor próximo do normal. Em casos do diabetes tipo 1, a utilização da insulina é essencial, e quase inevitável no controle do diabetes tipo 2, cerca de 90% dos casos da doença. O tipo 1 manifesta-se normalmente em crianças e adultos jovens, quando o pâncreas não produz a insulina necessária para regular a glicose sanguínea. No tipo 2, o organismo ainda produz insulina, mas falha em utilizá-la efetivamente para converter a glicose em energia. ''Nos primeiros 15 ou 20 anos, o paciente consegue controlar o diabetes tipo 2 só com exercícios e dieta, para depois utilizar insulina. Esse paciente não morre se ficar sem insulina, mas está sujeito a sérias complicações'', disse o presidente da Associação Latino Americana de Diabetes, Antonio Chacra.
Para a professora Ivone, o novo medicamento poderia diminuir o desconforto de duas aplicações diárias de insulina. Poderia. A maior desvantagem dele está no preço: o tratamento com a insulina glargina é de quatro a cinco vezes mais caro que com a insulina NPH. O custo mensal do tratamento é estimado em R$ 232,00 mensais. ''A idéia de usar insulina apenas uma vez por dia me atraiu, mas o aumento no preço é significativo e fica inviável, não só para mim, mas acredito que para muita gente'', disse.
A jornalista viajou a São Paulo a convite da Aventis Pharma.

mockup