O Brasil tem 2.045 praias, segundo o guia de uma revista especializada em roteiros de turismo. Entretanto, muitas deixaram de ser catalogadas. No Paraná seriam apenas 19, pois entre Pontal do Sul e Matinhos só a praia de Leste foi citada. Entre Matinhos e Caiobá só tem duas, quando sabemos que tem muito mais. Conclui-se então que o número real, nos mais de oito mil quilômetros da costa brasileira, é muito maior.
Dentre todas, raras são as praias naturistas de verdade, ou de ‘‘nudismo’’, como dizem os leigos. Apenas Tambaba (PB), Barra Seca (ES), Pinho (SC) e Pedras Altas (SC) possuem algum controle na entrada e o nudismo total é obrigatório, para todos. Seguem as regras básicas da Federação Brasileira de Naturismo, que é uma cópia das regras da Federação Internacional, adaptada para os povos latinos. Pouquíssimas também são aquelas onde o nudismo é tolerado, como em Trancoso (BA), Olho de Boi (RJ) e Galheta (SC), entre outras. Dizem até que a praia do Miguel, na Ilha do Mel, é uma delas. Estivemos lá diversas vezes e não vimos nada.
Sobram ainda mais de duas mil praias para os que preferem banho de roupa. Não há motivo para se preocupar com os naturistas, que só querem um cantinho para tomar banho de sol com tranquilidade, sem curiosos por perto.
Naquelas onde o nudismo é tolerado, o que se vê são centenas de curiosos, todos vestidos, querendo ver os pelados. Poucas moças, cercadas de seguranças, arriscam um topless. Um ou outro casal, mais exibicionista, tira a roupa e resolve dar um show. Naturista mesmo, não tem nenhum, e se tiver, estará vestido como os demais. Realmente, é impossível praticar naturismo num lugar assim.
Nas praias de nudismo total (Pinho é o point brasileiro) a coisa é muito diferente. São autênticas praias naturistas. Ordem, seriedade, respeito recíproco e solidariedade são as principais características. Crianças, jovens, adultos e idosos, de ambos os sexos, de todas as raças e suas miscigenações, de todas a crenças e classes sociais, confraternizam na mais perfeita harmonia. Gordos e magros, altos e baixos, todos muito belos - pois para o naturista a beleza é uma coisa interior, própria da intelectualidade de cada um, e não externa, como entendem os vestidos - curtem na mais absoluta liberdade a única coisa que vale a pena possuir: a vida.
Naturismo não tem nada a ver com sexo. Estar nu não dá o direito de comportar-se como um animal, que é amoral. Somos civilizados. Muito mais que aqueles vestidos que vão lá para ver os pelados. Estes, sim, fazem isso para alimentar sua imoralidade. Aliás, imoral é tudo o que excita o moralista. Por causa deles, principalmente homens (machistas) que deixam a mulher em casa sozinha, e vão lá para ver mulher pelada, ou que levam sua companheira, mas chegando lá a impedem de tirar a roupa, é que mantemos rígido controle na entrada. A praia é pública, mas o público dali é despido, portanto vestido não entra. Se forçar a barra, vai enfrentar a maioria. E para melhorar o equilíbrio, um pequeno setor da praia é exclusivo para casais e famílias. Ali, homens desacompanhados não entram, senão vira clube do Bolinha. É lá que ficam minha mãe, minha mulher, minha filha e meu filho, com sua namorada, enquanto me revezo na portaria, com outros amigos, para recepcionar e orientar os novatos que chegam.
E a maioria acaba aderindo. Depois se arrependem. Ficam profundamente arrependidos por não terem começado mais cedo. Afinal, praia limpa não tem em qualquer lugar. Desordeiros, vendedores, olhares indiscretos, cantadas grosseiras, fiu-fiu, drogas, cães, bicicletas, jogadores de bola, farofeiros, arrastão, aparelhos de som e, principalmente biquinis e sungas, são algumas coisas que não se encontram lá. Só muita paz e tranquilidade. Palmeirenses e Sãopaulinos tomam cerveja com ateus e teólogos. Só harmonia, apesar das divergências.
Hoje, apenas em Curitiba, cerca de duzentas famílias, como a minha, praticam o Naturismo. E mais oitenta milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. Sem nenhum sentimento de culpa, sem nenhum constrangimento. O Naturismo é saudável e recomendável. Não temos adolescentes grávidas. Não sabemos o que é estupro, drogas e outros vícios considerados como aberrações pela sociedade em geral. Naturismo não tem nenhuma conotação sexual. Só aqueles que têm sexo na cabeça todo o tempo é que não o compreendem. Alguns se infiltram, acabam se dando mal e se afastam. Descontentes e falando mentiras. E os ‘‘fiéis’’ acreditam.
- MÁRIO BYLT é professor e presidente da PARNAT - Associação Paranaense de Naturismo

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