A fiscalização da nova NR-01 entra em vigor neste 26 de maio, as multas são gigantes e quem achou que podia continuar "treinando" funcionários até a exaustão mental vai descobrir que a medalha de ouro custa uma fortuna.

No início dos anos 70, o Brasil venceu a Copa do Mundo e foi também campeão mundial de acidentes do trabalho, de lá para cá o nosso país se adequou de forma exemplar, vencemos mais uma guerra, implementando o uso obrigatório e adequado de equipamentos de segurança, além de cuidados especiais através de conscientização, campanhas e fiscalização constante de equipes multidisciplinares.

Agora a NR-1 estabelece que é também responsabilidade da empresa, cuidar, além dos perigos ocupacionais, dos riscos psicossociais, ou seja, atenção plena à saúde mental de todos os seus colaboradores de uma empresa, do porteiro ao alto funcionário.

Isso porque o Brasil se tornou campeão novamente. Em 2025, 546 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais, o maior número da história.

A NR-1 - Norma Regulamentadora nº 1, não é uma lei aprovada pelo Congresso Nacional, mas tem força de lei, ela é regulamento criado pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) para detalhar como devem ser cumpridas as leis trabalhistas no Brasil, especialmente a CLT.

Os números mostram o tamanho dessa epidemia. A síndrome de burnout, ligada ao ambiente de trabalho, registrou crescimento de 493% entre 2021 e 2024 e triplicou entre 2023 e 2025. O mecanismo é simples e perverso: esgotado, o funcionário é descartado, e o pato quem paga?

Pois bem, essa conta não saiu barata. Primeiro, pelo alto custo humano: pessoas expostas ao crescente assédio sistemático e rotina desgastante que corrói o bem-estar dos trabalhadores adoecem por anos. Em segundo lugar gravíssimo para o financeiro das empresas, com prejuízo entre afastamentos, indenizações, turnover e presenteísmo.

Até agora, o problema foi ignorado e quem pagou a maior parte da conta foi o INSS, ou seja, nós os contribuintes.

Em 2023, os gastos da previdência nos afastamentos por saúde mental somaram R$ 477 milhões. Em 2024, subiram para R$ 848 milhões. Em 2025, ultrapassaram R$ 954 milhões — praticamente 1 bilhão de reais em um único ano. Segundo dados do Ministério da Previdência Social analisados pela Anamt (Associação Nacional de Medicina do Trabalho), o crescimento foi de 100% em dois anos.

A situação tornou-se insustentável, há uma multidão de pessoas verdadeiramente adoecidas, e há também uma fortíssima tendência que apoia mudanças regulatórias, não apenas o Estado e a Justiça, mas toda sociedade e até mercado financeiro, que apontam para que as empresas sejam protagonistas nessa prevenção, não só joguem o problema para o INSS.

A grave situação nos aponta que é o melhor momento para sermos campeões novamente, já que esse ciclo acabou, hoje dia 26 de maio de 2026, a NR-1 entra em fase punitiva. O Estado, que não tem mais como absorver esse custo sozinho, transferiu parte da responsabilidade de volta para quem gerou o problema.

A fiscalização que começa agora vai exigir a ação consciente das empresas: apresentação do diagnóstico e um plano de implementação personalizado, supõem-se que as empresas já prospectaram, analisaram suas pesquisas realizadas com todos os seus colaboradores e de forma anônima, requisito da NR-01, já têm seus relatórios setorizados e os planos de implementação da NR-01 no seu Programa de Gerenciamento de Riscos – PGR, que é o documento central do GRO – Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, já assinados pelo Médico do Trabalho.

Nos próximos dois anos será uma verdadeira maratona para estancar esse grave problema. Fazer palestrinha não basta! Antes da próxima fiscalização, cada empresa brasileira precisa corrigir essa rota até que cada organização encontre a sua forma particular de promover a saúde mental, boa produtividade e ambiente de qualidade. Para que novas equipes multidisciplinares entrem nas empresas, conheçam sua rotina, história e a sua cultura de trabalho, seus pontos de tensão e o mais importante, onde estão os seus silêncios. Que os novos profissionais engajados saibam identificar onde o problema se concentra e proponham soluções que respeitem a todos.

Em poucos anos o investimento em novos profissionais direcionados em prevenir o que adoece o trabalho e preserva a saúde mental será um ponto de honra das empresas mais lucrativas do Brasil. O processo vai trazer grande economia para o empregador e, o melhor, a preservação do seu funcionário, que é o seu bem mais precioso.

O ser humano em sua necessidade de produzir e se sentir útil, ser respeitado e incluído como parte fundamental do seu ambiente de trabalho. Esse trabalhador será mais produtivo, mais engajado na linha de produção e será aquele que vai melhorar todo o sistema de trabalho. Estamos diante de uma nova cultura que está nascendo hoje!

Maria Ábramo, terapeuta integrativa e jornalista

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