Novos cenários para a economia mundial
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de novembro de 2001
Gilmar Mendes Lourenço 
A economia mundial experimenta atualmente um fenômeno inédito nas últimas três décadas: os três grandes pólos (Estados Unidos, Europa e Japão) denotam simultânea trajetória declinante dos níveis de atividade, com desdobramentos sobre os ramais periféricos da Ásia e da América Latina. Tal fato é reflexo, de um lado, do reduzido poder de coordenação entre os governos e, de outro, de sua cega submissão aos preceitos de ajuste convergente entre os diferentes subsistemas globais.
Na prática, os ataques terroristas e a reação americana antecedida por rápida e abrangente coalizão de países interessados no isolamento do radical islâmico Osama bin Laden e seus escudeiros Talebans serviram para aprofundar a trajetória de desaceleração da economia mundial, capitaneada por Estados Unidos, Europa e Japão.
No centro do sistema, a desaceleração da economia americana teve início no final de 2000, com a pronunciada queda da demanda de bens de consumo duráveis, em razão da redução da renda variável mobiliária, atingindo na sequência a formação de capital fixo, inclusive a produção e a venda de equipamentos de informática e de telecomunicações.
A economia americana cresceu acima de 4% ao ano entre 1997 e 2000 e as previsões para 2001 e 2002 davam conta de forte diminuição daquele ímpeto expansionista e recuperação moderada, respectivamente, com variação de 1,5% e 2,3%.
Os mercados apostam que os cortes de juros promovidos pelo Federal Reserve (Fed) e a suposta recaída keynesiana da administração Bush serão insuficientes para garantir uma reversão da recessão. Ao mesmo tempo, a proposta de realização de cortes gradativos dos impostos, formulada pelo presidente George W. Bush, pode representar favorecimento às categorias de renda mais elevada, ameaçar os superávits orçamentários conquistados desde administração Clinton e sacrificar programas sociais.
Apenas para ilustrar a argumentação recessiva, somente em setembro de 2001 ocorreu o desaparecimento de 415 mil postos de trabalho nos Estados Unidos, de acordo com levantamento do Departamento do Trabalho, configurando a maior elevação mensal nos últimos vinte anos, resultando numa taxa de desemprego de 5,4% da População Economicamente Ativa (PEA) contra 4,9% em agosto.
A União Européia (maior mercado das exportações brasileiras) permanece em compasso de espera em face da reduzida clareza quanto à trajetória provável da economia norte-americana. Mesmo assim, o Banco Central Europeu reduziu novamente as taxas de juros para o nível de 3,25% ao ano, surpreendendo o mercado, enquanto o FMI projetava expansão de apenas 1,1% do PIB e desemprego de 9% para 2001 em todo o continente.
O Japão continua em retração há uma década, agravada pelo declínio do consumo interno, pela redução das exportações motivada pela desaceleração americana, e pelo recente registro de deflação. A estratégia monetária frouxa praticada pelo Banco do Japão, combinando expansão do crédito e juros próximos de zero, tem se revelado incapaz de alterar o desânimo dos mercados, marcado pela queda nas cotações das ações na bolsa e dos preços dos imóveis.
Considerando que aqueles prognósticos para a economia mundial foram formulados antes dos atentados, é bastante plausível que o cenário sofra alterações para pior. É razoável esperar impactos contracionistas decorrentes da postura defensiva assumida nas decisões dos agentes econômicos em face de conflitos políticos da envergadura do caso EUA versus regime Taleban. Por isso, proliferam sinais de que o mundo estaria ingressando na primeira recessão da globalização, comparável apenas ao pronunciado ajuste provocado pelo choque do petróleo de 1973.
A propósito disso, já tentando incorporar os impactos negativos dos atentados, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estima crescimento de apenas 1,0% em 2001 e 1,2% para 2002, os piores desempenhos desde 1982, para o conjunto dos 30 países membros.
- GILMAR MENDES LOURENÇO é economista e professor da FAE Business School em Curitiba


