Novo terrorismo
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de setembro de 2001
Padre Manuel Joaquim R. dos Santos 
O injustificável não se justifica. O terrorismo é a face mórbida das trevas, incendiando-se em ódios personificados, que têm sua lógica própria: ''Ninguém é inocente!'' Os atentados aos EUA são o que de mais hediondo poderíamos assistir. A revolta que o mundo sente é um misto de impotência e sentimento de vulnerabilidade, que paradoxalmente caracterizam o homem deste século.
As imagens fizeram com que ficção e realidade se confundissem, deixando-nos à mercê de juízos e atitudes até ontem impensáveis. A maioria absoluta dos americanos deseja vingança, sem ao menos saber o endereço do inimigo! Líderes ocidentais (e orientais) declaram apoio a Bush e falam no início de uma guerra. Presidentes de países quase insignificantes colocam seus espaços aéreos à mercê dos americanos... paranóia geral!
O mundo não é mais o de ontem. Demoramos para aprender a lição e os acontecimentos dos anos 90 - a queda do Muro de Berlim e a implosão da URSS - ainda não foram capazes de nos convencer. Os inimigos de então, são hoje (por vários motivos) aliados. Até o Paquistão (!) quer estar ao lado dos EUA! A economia comanda este mundo globalizado. A hegemonia americana não está mais caracterizada pelas imagens ostensivas de seus porta-aviões em manobras, e sim pelos números da balança comercial ou pela presença maciça de suas multinacionais.
As crianças do Afeganistão ou das periferias das grandes cidades, são o protótipo mais acabado da ponta da corda deste processo de globalização, contestado em Gênova e outros locais. O desenvolvimento conseguido nos últimos anos, que colocou os EUA como símbolo da realização total do homem (repetição do ''sonho americano''?!), não é infelizmente perfeito, e marginaliza progressivamente uma boa parte dos habitantes do planeta.
O terrorismo, por sua vez, não é mais o mesmo; aquele que conhecíamos - idealista, e até diríamos ''simpático'', que recebia vários tipos de apoio - acabou e deu lugar ao de hoje, a face mais obscura do nada. Ontologicamente reduzido ao total anonimato, ele é apenas a negação do que existe. Os EUA são o grande inimigo; mas os prédios do WTC são muito mais do que os Estados Unidos. Na sua destruição, tenta-se acabar com o sistema. Esse mesmo, que gera preocupações em fundamentalistas que desejam manter nas trevas da ignorância medieval os milhões de islâmicos ao redor do mundo.
Trata-se de uma guerra de civilizações, uma guerra de culturas, que usará até à saturação o nome de Deus e a configuração religiosa. O ataque suicida à América afetou o mundo em todos os aspectos possíveis. Daí a afirmação que este mundo não ''será mais o mesmo'' depois do 11 de setembro.
Uma reflexão deve ser levada a cabo. A vingança nessa espiral, que é a base da lógica terrorista, não pode ser o caminho de uma nação madura e democrática. O inimigo não está no Afeganistão nem em qualquer país. Muito menos numa religião. O inimigo está ali... aqui... em nós. É a intolerância, a insensibilidade e a relativização total da vida, minada por raiva e ódio, de gente que já foi usada pelo mesmo sistema que agora quer destruir.
É esse tipo de relacionamento internacional, que constantemente deve ser questionado e que infelizmente se constitui na plataforma de atos como os que tivemos a infelicidade de assistir. O ataque em Oklahoma, em 1995, que deixou 168 mortos, perpetrado pelo americano fanático Timothy McVeihg, executado em junho, já tinha deixado vestígios do perfil dos atuais inimigos da sociedade hodierna. Quase impossível vencer esse inimigo.
Somos todos vulneráveis: o Pentágono, a inteligência americana, o mundo. As nossas seguranças são aparentes. É isso que cada americano deve ter pensado. Quanta coisa desabou com a implosão do World Trade Center! Dos escombros dessa tragédia surgirá um novo homem, que se espera, use da inteligência.
A sede de vingança e castigo aos autores (?) não reflete com certeza o bom senso. E ninguém gostou de saber que líderes ocidentais manifestaram incondicional apoio a Bush. Esse filme a história recente já viu. A prudência nos diz que chorar os mortos e cuidar dos feridos, é no momento o melhor que os States podem faze.! Depois... a razão ditará o curso da história.
- PADRE MANUEL JOAQUIM R. DOS SANTOS é pároco da Paróquia Imaculada Conceição em Londrina


