Novo imperialismo
Dados da ONG britânica Oxfam (2016) apontam que o 1% da população global detém a mesma riqueza dos 99% restantes. Esse estudo baseia-se no relatório anual sobre a riqueza mundial divulgado pelo banco Credit Suisse. Em 2010, a mesma pesquisa havia apontado que para se ter uma riqueza equivalente à metade da população da Terra eram necessários 388 bilionários. Em 2014, esse número baixou para apenas 85 pessoas, e, em 2017, são necessários apenas oito indivíduos para concentrarem juntos uma riqueza equivalente à soma de cerca de 3,6 bilhões de pessoas.
A mesma pesquisa aponta o Brasil como um dos principais exemplos de desigualdade econômica em todo o mundo. Apenas seis bilionários detêm uma fortuna equivalente à soma de 100 milhões de pessoas, ou seja, de metade da população nacional e disputamos a 13ª colocação entre as nações com pior distribuição de renda do planeta (GINI, 2013). A década de 2000 havia conseguido melhorar os índices de pobreza e de distribuição de renda ao promover cerca de 44 milhões de brasileiros à classe C e retirar 36 milhões da miséria absoluta, mas esses avanços estacionaram a partir de 2013 e começam a apresentar sinais de regressão com o aumento acelerado do desemprego.
O conceito de democracia econômica ainda parece um tanto estranho considerando que a democracia é geralmente reduzida ao universo político, mas quando a economia se sobrepõe em poder às demais dimensões, é inevitável reservar-lhe uma atenção particular e entender que esta vem manipulando a própria dimensão política, enfraquecendo-a progressivamente. Ter eleições periódicas não basta, já que as decisões que mais impactam nossas vidas pouco dependem dos governos, mas são definidas por um número cada vez menor de corporações transnacionais que passam a impor sua ordem, sem qualquer compromisso com a participação de quem é afetado por suas decisões, ou com o bem comum, mas apenas em maximizarem lucros para os acionistas.
Embora muitas empresas administrem orçamentos superiores a muitos estados-nação, suas estruturas organizacionais não são democráticas e muito menos os resultados do trabalho coletivo são socializados. Não se pode mais falar em países que possuem empresas, mas empresas que possuem países, haja vista que das 100 maiores economias do planeta, 69 são corporações e 31 são países. Essa nova forma de imperialismo foi particularmente impulsionada com a aceleração do processo de globalização das últimas três décadas, em que se desregulamentaram os mercados e derrubaram as fronteiras nacionais, viabilizando a criação de conglomerados transnacionais de dimensões superlativas. Diante dessa realidade, os governos passaram a se curvar às demandas das empresas, reduzindo impostos, flexibilizando leis trabalhistas e ambientais, tudo para não as afugentar.
Estamos diante de uma realidade que se assemelha aos antigos estados monárquicos ou oligárquicos, em que se naturalizam as assimetrias de renda e poder e a maioria da população não passa de massa de manobra dos novos impérios, pior, aceitando a situação como inevitável. É bom lembrar que as estruturas sociais são criação humana e, como tal, suas iniquidades também o são, não se trata de uma condição natural inevitável. A democracia política torna-se cada vez mais um rascunho do que deveria ser e, em muitos casos, apenas uma fantasia para iludir a população que ainda pensa que decide alguma coisa. Estamos cada vez mais perto da ficção trazida pelo filme Elysium em que, num futuro não muito distante, os mais ricos vivem em uma estação espacial desfrutando de uma vida gloriosa, enquanto a grande maioria da população trabalha na Terra, em condições de miséria, para sustentar essa elite distante.
LUÍS MIGUEL LUZIO DOS SANTOS é doutor em Ciências Sociais e professor da Universidade Estadual de Londrina
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