Noventa e seis mil demitidos
Noventa e seis mil demitidos
Jorge Samek No última semana, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese) anunciou o seu balanço dos cinco anos de real. Alguns dados deste levantamento são muito significativos para se discutir o rumo da nossa política econômica. A pesquisa feita somente com o volume de empregados com carteira assinada - portanto excluindo o mercado informal - mostra que neste período as indústrias instaladas no Paraná promoveram 2.477 milhões de admissões, contra 2.573 demissões, o que nos leva a um déficit de 96 mil postos. Este número é muito alto se considerarmos que fora dele está um contingente maior, já que não estamos falando do número de desempregados, mas sim da perda de postos de trabalho na nossa indústria. Somente em Curitiba e na Região Metropolitana foram 22 mil postos a menos.
Estes números nos levam a algumas conclusões importantes, das quais destaco a constatação de que, apesar do alarde e do que foi investido de dinheiro público pela administração Jaime Lerner, o Paraná não está isolado como uma ilha de prosperidade e enfrenta uma situação tão grave quanto outras regiões do País.
Ainda segundo este levantamento do Dieese, no período a produção industrial do Paraná cresceu 16,63%, numa média de 3,12%, mas este crescimento não levou necessariamente a um aumento do número de postos na indústria. O aumento da produtividade, a automação, a reestruturação produtiva das empresas, tudo isso levou a uma extinção de postos. O aumento da população não foi acompanhado pelo crescimento dos postos de trabalho. A demanda média foi de 24 mil novos postos, frente ao 11 mil que estão sendo criados.
Outro fator importante que foi mostrado pela pesquisa é que a renda média do Paraná foi a pior do Sul do País: 4,87 salários mínimos, inferior aos 5,01 e 5,18 registrados, respectivamente, em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O desempenho de Curitiba foi também inferior entre as capitais do Sul.
No mesmo período, a renda média foi de 6,89 salários mínimos, ante os 7,88 de Florianópolis e os 7,36 de Porto Alegre. Talvez não seja à-toa que quando usamos outro índice, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), adotado pela ONU, as cidades melhor qualidade de vida do País estão nestes dois Estados.
Sei que as autoridades palacianas vão se defender com argumentos como: Esta oposição torce para que tudo dê errado e só faz apologia ao que vem de fora, não reconhecendo o esforço que o governo do Estado vem fazendo. O debate não é esse. O que quero continuar refutando é a alternativa de se investir maciçamente na indústria automobilística, como mola propulsora do nosso crescimento econômico, da geração de emprego e renda. É claro que não sou contra a vinda das montadoras, sou sim contra o massacre nas finanças públicas para criar vantagens somente para um setor da economia do nosso Estado. Tudo isso é como se comprar um carro importado conversível e não ter casa para morar.
O engraçado é que se continuarmos acompanhando os números do levantamento do Dieese, vamos perceber que mesmo dentro do setor industrial as coisas não andam bem. As indústrias de couro e pele tiveram um desempenho negativo de 72,68% no período, a têxtil menos 47,49%, vestuário e calçados menos 72,39% e produtos alimentares menos 1,30%.
Não podemos usar a política fácil de vestir um santo para despir outro. Cadê a política de desenvolvimento da nossa espoliada agricultura? Cadê o incentivo ao turismo? Cadê o apoio ao pequeno e médio empresário? Cadê o incentivo ao pequeno médio comerciante?
Ainda em tempo, quero ressaltar que os números do Dieese apontam que o custo da cesta básica em Curitiba passou de R$ 50 em 1995 para R$ 109 em maio deste ano. Segundo os técnicos responsável pela pesquisa, somente três capitais têm cestas básicas mais caras desde o início do levantamento. E aí então eu pergunto: cadê a política de abastecimento?
Espero que os apologistas palacianos, encastelados nos amplos salões dos institutos de pesquisa chapa branca, desçam da sua torre de marfim para compreender a nossa realidade. Chega de análise da nossa conjuntura econômica servirem somente como peça de marketing político.
- JORGE SAMEK é engenheiro agrônomo, vereador de Curitiba e vice-presidente do PT-PR





