Nova York Por Aí
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de fevereiro de 1997
José Bolivar Bretas 
Ninguém é insubstituível, diz a máxima. Porém, o espaço que ele deixa é impreenchível. É claro que, neste mundo de gregos e troianos, é impossível agradar a todos. Entretanto, agradava-me muito o seu estilo, a sua franqueza e o oportunismo das palavras. Paulo Francis era um craque. Não era como aqueles jogadores só oportunistas. Era daqueles que, além de oportunistas, sabiam o que fazer com a sua craqueza. Dessa forma, manipulava as palavras com a mesma facilidade que um Ademir da Guia, que um Didi, que um Pelé petecavam uma bola, ou, por outra, com o mesmo toque sutil com o qual um Richard Clayderman ou um Arthur Moreira Lima dedilham as teclas de um piano. Poder-se-ia, para melhor lhe configurar o dom de esgrimir as palavras, lembrar Monteiro Lobato, referindo-se, em certa oportunidade, a Rui Barbosa dizendo sobre ele, Rui, palavras de admiração que bem se aplicariam a Paulo Francis: ... que cetáceo, neste nosso marzinho de arenques! Ele rege as frases como um cocheiro russo rege a troika! Que nababo!
Bem informado, dono de invejável cultura, parlador de algumas línguas, entre elas o inglês que falava fluentemente, escreveu os romances Cabeça de Negro e Cabeça de Papel, a autobiografia O Afeto que se Encerra e o livro de reavaliação política Trinta Anos Esta Noite.
Eu não perdia o seu Diário da Corte, primeiro no Estadão e agora, por último, na Folha de Londrina. Sabia que lá sempre encontraria muita informação e muita aula. Nos tempos do Pasquim foi um baluarte, um porta-bandeira, um abridor de caminhos, um picadeiro desses que se embrenham nas matas com um facão na mão e vão rompendo cipós e galhos com mão firme e golpes certeiros.
Mas tem gente que não gostava dele. Fernando Jorge é um deles. Luiz Fernando Emediato é outro. Esses chamavam-no de leitor de almanaques e de orelhas de livros, homem de cultura meramente onomástica, acusando-o de plagiário e xingando-o de poço de ignorância e estupidez. Chegaram mesmo a escrever um livro contra Paulo Francis. Fernando Jorge o autor e Luiz Fernando Emediato, o editor.
A verdade é que, como diz o ditado, ninguém chuta cachorro morto. Contra Rui Barbosa foi a mesma coisa. Não me lembro quem (e nem me interessa lembrar), escreveu um livro, parece-me com o título Uma Pulga na Asa da Águia ou Um Piolho na Cabeça da Águia, ou... sei lá, sei lá..., objetivando denegrir a figura do grande Rui. Foi só alvoroço momentâneo. Ninguém mais ouviu falar do cara nem do livro. Rui não, Rui continua vivo na memória do povo e no registro da história.
Paulo Francis, apesar dos seus desafetos, alguns talvez até gratuitos, enquanto houver jornalismo, enquanto existir jornal, enquanto houver história neste país, assim como Rui, não morrerá. É como se saísse de férias. Ficará aquele vácuo, aquele vazio seguido daquela sensação de que um dia voltará a escrever e possamos ler o seu Diário da Corte, o seu Nova York Por Aí, vendo-o falar, quero dizer, escrever, por exemplo, de Van Gogh: Van Gogh pinta a comunhão dos camponeses com as batatas. Ele não sabia desenhar muito bem, mas o que passa é de uma fraternidade que só existe em nossos sonhos, se formos abençoados com imaginação. Nenhum de nós pode sequer imaginar o que ele experimentava pintando. Imaginem, não, não é possível imaginar, o que Van Gogh, filho de pastor, embebido em calvinismo feroz, sentiu ao pintar aquela ceia humilde, dos deserdados e esquecidos da terra, rejeitando delicada mas conclusivamente o espiritualismo da outra Santa Ceia (OESP, 10/4/94) - Waaal, O Dicionário da Corte de Paulo Francis, organização de Daniel Piza, Companhia das Letras, 1.996.
Ao contrário do título do seu livro, O Afeto que se Encerra, o meu afeto por ele, a despeito de não ter tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente (pior para mim), é o afeto que não se encerra. Tchau, Paulo, até, de repente, em Nova York Por Aí...


