Nova Violência: produto do narcotráfico
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 10 de setembro de 2002
Francisca Vergínio Soares 
Em outra ocasião, neste mesmo espaço, apresentei um artigo falando sobre um novo paradigma: o da nova violência. Criei este conceito quando desenvolvi minha tese de doutorado em 1998 ao examinar a questão da violência no Rio de Janeiro na década de 1980, período em que de fato o crime organizado se instalou naquele Estado.
Este estudo, é uma tentativa de entender porque este fenômeno explodiu de um modo tal que o próprio poder público - seja no primeiro governo Brizola, seja no de Moreira Franco - debateu-se, sem jamais conseguir debelar o problema, uma vez que suas políticas de segurança não tinham como prioridade o combate àquele que passou a figurar como o principal fomentador da nova violência: o tráfico de drogas e outras formas de delitos que o cerca.
Ou seja, o admirável mundo novo que se tornou o Rio de Janeiro, é o resultado de posturas omissas de sucessivos dirigentes que por razões diversas mantiveram-se neutros em face de um problema que já era denunciado por autoridades sérias, mas que infelizmente, não foram ouvidas.
Hoje, não só o Rio, mas também outros estados, outras cidades tornaram-se reféns de uma narcoditadura que comandada por líderes criminosos ditam normas, regras e riem escancaradamente das autoridades oficiais.
Basta observar quando algum criminoso é preso, a certeza da impunidade é tanta que se nota a ostentação de uma postura de superioridade, parece zombar o tempo todo da Lei é como se quisessem dizer: ''Não adianta me prender, porque de dentro dos presídios o comando continua''.
Da década de 80 até hoje são vinte anos, não de existência do tráfico, mas de um percurso que teve a complacência ou a tolerância de certos setores públicos que não criaram empecilhos ou dificuldades para sua estruturação.
As políticas propostas pelos sucessivos governos daquele estado, subestimaram os grupos criminosos que agiam nas comunidades carentes e sorrateiramente arregimentavam seus ''soldados''.
Conhecer o processo pelo qual se desenvolveu o narcotráfico no estado fluminense, pode ser de grande ajuda aos outros estados, onde ele avança a passos largos, com os mesmos métodos.
A nova violência é produzida, sem dúvida, pela ação do tráfico de drogas e o Rio de Janeiro serve de alerta: toda e qualquer política de segurança pública que não contemple prioritariamente este problema, torna-se obsoleta e ficará à margem de qualquer resultado.
Pode-se dizer que Londrina, atualmente, assemelha-se ao Rio do início da década de 1980, lá, por várias razões, o poder público não conseguiu intervir e evitar o confronto de ''poderes''. Mas aqui, ainda há tempo, é possível ainda reverter o quadro e resgatar o princípio de civilidade.
FRANCISCA VERGINIO SOARES é socióloga e professora da Universidade Estadual de Londrina e Uninorte (Universidade Norte-Paranaense)


