Alunos fora de sala de aula, estudando com ferramentas digitais e tendo no professor um profissional para auxiliá-los a explorar ainda mais seus horizontes de conhecimento. Este é o processo em que muitos brasileiros vão estar inseridos em breve na chamada 3ª Revolução Educacional.
"Ela começou semana passada, é muito rápida, dinâmica e diferente das outras", resume o professor aposentado Ronaldo Mota, físico por formação, mas pesquisador da área da educação. Ele tem pós-doutorado no setor pelas universidades de Utah, nos Estados Unidos, e British Columbia, no Canadá.
O processo, esmiuçado por ele durante o 5º Fórum Anual de Docentes da Universidade Estácio de Sá realizado nos dias 7 e 8 de agosto no Rio de Janeiro, para o qual a FOLHA foi convidada, causou frisson entre os 650 professores universitários presentes no evento. Tudo porque a metodologia de ensino aplicada ao longo das últimas décadas cairia em desuso. "Os conteúdos didáticos seriam expostos aos estudantes antecipadamente, ficariam em nuvens (na internet), disponíveis o tempo todo. O tempo das aulas seria reduzido e a figura do professor seria substituída por um tutor, penso que o professor será um designer educacional", explica.
A 3ª Revolução Educacional está diretamente associada à inovação tecnológica e ocorre cerca de 2,6 mil anos depois de Sócrates, fundador da filosofia ocidental, que revolucionou o período com o advento das escolas, e seis séculos após Johannes Gutemberg, inventor da prensa móvel e que possibilitou a difusão dos livros.
Ronaldo Mota ressalta que muitos países iniciaram a discussão para implantação dessa nova metodologia de ensino, mas nenhum definiu um padrão a ser seguido. Ele já ocupou cargo de Secretário Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e afirmou que o Ministério da Educação (MEC) postergou a análise deste fato.
Como se dá esse movimento da 3ª Revolução Educacional?
Está diretamente ligado à tecnologia de inovação. No processo de aprendizagem é imprescindível que o aluno tenha se preparado (para a aula) tomando contato com o conhecimento antes de entrar em sala. O aluno não é um elemento passivo, mas ativo no processo. Ele não só tem acesso, ele modifica a coisa observada, interage, apresenta questões e pontos de vista estimulantes. Consequentemente, poderemos ter menos aulas, que serão mais dinâmicas, mais produtivas e interessantes. Não existirá no futuro essa figura de um estudante que vai para uma sala de aula na absoluta ignorância daquilo que vai ser debatido pelo professor. Existirá estudante que não se dispôs a ter contato com a lição antecipadamente, mas provavelmente não terá acesso à sala de aula. Faço uma analogia: atualmente o estudante é reprovado de ano, no futuro ele será excluído de algumas atividades por não ter tido vontade de aprender determinado conteúdo, por não ter se preparado adequadamente.
O ensino a distância vai nortear esse processo?
Eu diria que passa por uma base tecnológica. Quando digo que o aluno estude antes, é fundamental que ele tenha acesso ao conteúdo. Quando digo acesso, não é ter um material liberado na nuvem, mas acesso facilitado, atraente, gostoso. As instituições terão que construir portais educacionais interativos que falem uma linguagem que o estudante goste e utilize. O aluno deve ser fortemente estimulado a acessar esse conteúdo anteriormente, independentemente de ser (ensino) a distância ou presencial. A base tecnológica que permite essa acessibilidade é a tecnologia digital. Não dá mais para pensar educação sem tecnologias digitais.
Parece muito simplório pensar que o tablet resolve tudo, não?
Claro. O tablet é um equipamento duro, nada acontece se você não tiver conteúdo. Estou falando do conjunto de objetos educacionais que está contido no aparelho, que vai permanecer em constante aperfeiçoamento. Estou falando de algo desenvolvido por profissionais de educação, que custaria pouquíssimo, factível. Os professores têm que colocar a educação em uma linguagem próxima de todos os níveis sociais.
E qual seria o papel do professor neste contexto?
Vejo o professor como um designer educacional. Ele manteria materiais dinâmicos, interessantes e agradáveis nos portais, uma espécie de game, ainda mais próximo da linguagem do adolescente. Teria condições reais de interação com os alunos cujos pressupostos seriam os fatores de aprendizagem. O estímulo seria algo fundamental nessa plataforma de ensino.
Qual é o cenário brasileiro neste processo da 3ª Revolução? Estamos atrasados nesse quesito?
Não sei se estamos atrasados, diria que os maiores problemas educacionais são internacionais, globais e não resolvidos. Do ponto de vista das questões mais essenciais e de transformação da educação on demand o Brasil está próximo, digo em pé de igualdade, aos outros países, já que ninguém resolveu. Claro que é razoável imaginar que, no contexto, quem tem uma base educacional melhor teria, em tese, melhores condições para enfrentar os desafios. Ressalto que eles ainda não foram enfrentados. Formar pessoas para o mundo da inovação é um desafio não resolvido por todos os países.
As instituições públicas e privadas caminham nesse sentido?
Não dá para pensar na transformação educacional desacoplada da utilização de novas tecnologias. E as novas tecnologias não têm um papel periférico, têm papel central, são pontos de começo, meio e fim. Não dá para pensar num profissional hoje que tenha dificuldades para lidar com tecnologias que virão. Para você preparar pessoas para tecnologias que virão, elas precisam no percurso acadêmico estar em contato com o que existe de mais avançado. Acho impossível formar um bom profissional hoje sem que ele tenha sido submetido aos desafios de lidar com o que existe de mais avançado do ponto de vista tecnológico. Portanto, independente de ser educação presencial ou a distância, acho que o contato permanente de um futuro profissional com tecnologias avançadas é imprescindível.
Durante cinco anos o senhor ocupou cargos no MEC, como são essas discussões dentro do governo?
Em geral nossos governantes são velhos, tradicionais e não gostam muito de tecnologia e de educação. Se eles fossem menos velhos e gostassem de tecnologia, não seria difícil mudar. As mudanças são de tal magnitude que raramente os gestores têm a ousadia para fazer as transformações que têm que ser feitas. Penso que as aulas atuais são horríveis, falando de forma genérica, são momentos de tortura. Ninguém tem interesse em permanecer em estado de tortura. Precisamos tornar as atividades educacionais em algo extremamente interessante. Como vimos nos últimos tempos nos protestos populares, os governantes são sensíveis à pressão dos interessados. É preciso que você tenha movimento das instituições, dos estudantes e dos professores dizendo que querem mudar o que fazem. A percepção e decisão das mudanças vão levar algum tempo, até lá a gente vai perder tempo.
Como o senhor avalia essa mudança, já que não há nada parecido nos ensinos fundamental e médio da rede pública.
Esta é parte importante da solução, criar um novo caldo cultural em que o estudante se habitue a ideia de que precedendo a presença dele na sala de aula, terá que ter tido contato com o conteúdo a ser ministrado. Vejo que 102 milhões de brasileiros têm acesso a internet e esse contingente precisa ser estimulado.

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