Nova realidade
Quando desceu das montanhas de Sierra Maestra, no comando de uma revolução, e derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista, Fidel Castro empolgou o mundo. Com sua barba e sua farda, quase repetindo o bíblico episódio de Davi contra Golias, sem outros recursos que uma férrea vontade de acabar com a exploração e o arbítrio, Fidel foi visto como um herói. Mesmo quando iniciou uma sangrenta repressão, mandando para o paredón inimigos ou dissidentes do regime, ainda houve quem aceitasse aquilo como reação a uma ditadura igualmente sangrenta. Mas enquanto a repressão se tornava cada vez mais bárbara e, principalmente, quando anunciou a adesão ao comunismo, Fidel acabou rompendo inclusive com os que o apoiavam, causando até mesmo um desequilíbrio na balança de poder mundial. Um país comunista nas barbas dos Estados Unidos era uma provocação muito grande, quebrando protocolos não escritos sobre a divisão da hegemonia mundial.
O comunismo de Cuba foi, desde o início, um espinho na garganta dos norte-americanos. E quase provocou a temida confrontação mundial no episódio dos mísseis nucleares instalados na ilha em 1962 pelos soviéticos. O caso foi superado com a retirada dos mísseis e humilhação do premier soviético Nikita Kruschev, mas Cuba persistiu sendo um incômodo para os EUA. Não faltou sequer uma frustrada tentativa de invasão, que contou com a participação de exilados e desmoralizou o governo norte-americano. Para aumentar a pressão, os EUA lançaram um embargo comercial, que não derrubou Castro mas serviu para tornar ainda mais difícil a vida para os cubanos.
Com a queda do comunismo na Europa Oriental, Cuba perdeu não só seu grande aliado mas, e principalmente, seu maior apoio. Sem os rublos enviados pela União Soviética, a ilha tornou-se ainda mais pobre. E houve até uma expectativa de que Fidel Castro cairia. Mas apesar de todas as adversidades, manteve o poder. Ademais, devido às mudanças que foram ocorrendo no quadro mundial, conquistou outros amigos. Hoje, já não é mais segregado na América Latina e é ouvido no contexto mundial, como ocorreu na semana passada, quando fez o mais aplaudido pronunciamento da cúpula da FAO sobre alimentação, realizada em Roma.
O ponto mais alto desse novo tempo para Fidel e Cuba veio nesta última terça-feira, quando Fidel foi recebido no Vaticano pelo papa João Paulo II. A Igreja em Cuba, como em todas as outras nações comunistas, foi perseguida, amordaçada e muitos de seus membros foram executados. Porém, o encontro entre o Sumo Pontífice da Igreja católica e o líder da última nação comunista do Ocidente marca um avanço que parece irreversível. Fidel pode continuar no poder e manter ainda o seu regime, mas a abertura que acontece agora não tem mais retorno. Não se trata só da Igreja, mas de tudo o que envolve esta nova situação.
Os próprios norte-americanos, que recentemente apertaram ainda mais o embargo a Cuba, impondo sanções a empresas que negociarem com Cuba ou se instalarem na ilha, receberam bem o encontro. É que há algo importante implícito no encontro papal. Fidel se comprometeu não só com a liberdade religiosa, mas com a liberalização em geral. Pois uma coisa leva à outra e o processo que se desencadeia agora vai prosseguir. Cuba poderá continuar a ser comunista, mas surge uma abertura que promete mudar a realidade cubana e introduzir algo novo em todo o continente.





