NOVA GERAÇÃO - Jovens estão perdendo capacidade de refletir
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Emerson Dias<BR> Especial para a FOLHA 
Rearticular a formação de professores e comunicadores e prepará-los para discutir as influências das mídias no cotidiano, de forma a integrar ações pedagógicas de maneira criativa e produtiva junto às práticas que envolvem a comunicação e os multimeios. Este foi o tema debatido recentemente por pesquisadores brasileiros e italianos que participam Grupo de Pesquisa Núcleo de Infância, Comunicação e Artes (Nica), com sede na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Entre eles estava Pier Cesare Rivoltella, professor de Didática e Tecnologia da Educação da Università Cattolica del Sacro Cuore, de Milão, e presidente da Sociedade Italiana de Pesquisa sobre Mídia-Educação, que é a área interdisciplinar que se preocupa em incentivar a inserção e a leitura crítica dos meios de comunicação na sociedade.
Para o pesquisador, não há mais espaço para discutir influências positivas ou negativas da mídia nos jovens. É preciso integrar o processo de aprendizagem com os meios de comunicação. Em conversa intermediada pela pesquisadora londrinense Luzia Yamashita Deliberador, professora doutora da Especialização em Comunicação Popular e Comunitária, juntamente com a pedagoga Gabriela Spagnuolo e a mestranda em Comunicação Mariana Ferreira Lopes, todas da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Pier Rivoltella concedeu a seguinte entrevista à Folha.
Hoje em dia os meios de comunicação ocupam um lugar central no cotidiano de crianças e jovens. Quais são as implicações na educação?
A primeira implicação é a mudança na forma de aprendizagem das crianças no que diz respeito ao tempo de atenção, já que o exigido pela mídia é mais rápido do que o da escola. A criança já está acostumada ao tempo de atenção mais curto dos meios de comunicação e quando vai à escola depara-se com a necessidade de se adaptar a um tempo mais longo. O segundo desafio é que, normalmente, a interação com as mídias faz com que as crianças e jovens se ocupem de muitas atividades simultaneamente. É este ojeito de trabalhar dos jovens, com ''multitarefas'': assiste televisão enquanto mexe no computador e ao mesmo tempo ouve música no Ipod e ainda faz outras coisas.
Os psicólogos falam que esse trabalho ''multitarefas'' provoca um deslocamento da atenção, que vira periférica e distribuída. Então, eles têm atenção a todas as coisas, porém de maneira superficial. Os jovens, acostumados a lidar com o tempo curto dos meios de comunicação, estão perdendo a capacidade de refletir em profundidade. São grandes desafios, porque a escola continua com uma didática que trabalha com tempos longos, diferentes do tempo dos alunos.
Qual é o papel da Mídia-Educação na resposta a essas implicações?
A Mídia-Educação possui três papéis. O primeiro é proporcionar às crianças e aos jovens a alfabetização técnica dos meios de comunicação, visando a formação de uma plena consciência de seus códigos e de suas linguagens. O segundo é fazer com que eles possam avaliar criticamente os conteúdos midiáticos para o desenvolvimento do pensamento crítico, para que pensem com autonomia. O terceiro objetivo é que eles saibam se expressar através da mídia, sendo esta a dimensão mais produtiva e criativa da Mídia-Educação. Os três objetivos ambientam a Mídia-Educação na escola e consequentemente devem ambientar a formação dos professores para essas competências.
Os professores estão conscientes da importância da Mídia-Educação na sociedade atual? Como deveria ser a formação destes profissionais?
Os professores, normalmente, não estão preparados, pois na tradição pedagógica a mídia é retratada como um perigo e o que se tenta é eliminar os meios de comunicação do campo de vivência da criança. O ideal seria o processo inverso. É necessário colocar a Mídia-Educação na formação inicial e continuada dos professores.
E quanto aos profissionais de comunicação?
A questão dos comunicadores é muito interessante. Em nossa sociedade eles educam, formam consciências e constroem o capital simbólico do público. Não podemos formar um profissional técnico da comunicação, tem que haver uma formação de competências para a Mídia-Educação. Isso também é um problema, pois pelo que sei somente na Inglaterra existem experiências de formação em Mídia-Educação para comunicadores, no ramo da publicidade e propaganda. Uma lei inglesa obriga cada agência publicitária ter um profissional formado em Mídia-Educação para avaliar campanhas antes de sua veiculação, porque as regras deles são mais severas. Se sai uma propaganda desrespeitando as crianças, a multa é muito cara. Então as agências realizam uma consultoria prévia com o seu mídia-educador. Na televisão não tem, no cinema não tem. Existe alguma coisa na avaliação de jogos de videogames, mas mesmo assim não existe um critério mídia-educativo nesses processos.
O que podemos fazer para trazer a Mídia-Educação para dentro da escola?
Às vezes se pensa que o modo para fortalecer a Mídia-Educação seria colocá-la no currículo escolar. Aí é preciso ter cuidado, porque nos países onde isso aconteceu a Mídia-Educação perdeu seu valor educacional, pois acabou se distanciando do cotidiano dos alunos. A melhor maneira seria distribuir a Mídia-Educação como competência de todos os professores. Não é uma disciplina, não é um conteúdo, mas sim uma atribuição de cada professor.


