Ao longo das três últimas décadas, os brasileiros viram sua expectativa de vida ao nascer aumentar em 11,5 anos. Hoje, os nascidos no País têm uma expectativa de viver ao menos 73,5 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas a ampliação da longevidade, comemorada como uma conquista coletiva, também traz novos desafios. Um deles é a maior incidência de doenças de origem genética.
  Nesta edição, a FOLHA discute o assunto em uma reportagem especial e alerta que esta nova demanda ainda não merece a devida atenção dos poderes constituídos. Fato este que pode se tornar cada vez mais grave se nenhuma atitude mais contundente for tomada por parte do Estado.
  Com a urbanização cada vez mais predominante - hoje 84% da população vive em cidades -, a melhoria da qualidade de vida e o acesso mais amplo das pessoas a serviços públicos como saúde, o brasileiro conseguiu estender sua vida. Tal situação resultou em novas demandas que precisam ser absorvidas pelos serviços públicos.
  Um exemplo deste novo tempo é o recrudecimento das doenças de origem genética. Antes tidos como pouco comuns, estes males hoje já não são mais tão raros assim. Atualmente, já são conhecidas mais de cinco mil alterações genéticas que resultam em doenças. Quem alerta é a própria Sociedade Brasileira de Genética Médica, que ressalta que esta nova realidade ainda não tem merecido a devida atenção dos órgãos oficiais.
  Com uma população de mais de 190 milhões de habitantes, o País conta apenas com cerca de 150 profissionais médicos especialistas em doenças raras. E se não bastasse a falta de mão de obra qualificada, soma-se ainda a falta de assistência e a ausência de cuidados aos brasileiros acometidos por estes males. Os recursos dispensados para estudos são parcos, a remuneração dos centros especializados em diagnósticos dessa natureza insuficientes - os exames realizados no laboratório especializado da UEL têm metade de seus custos bancados pela instituição - e a indústria farmacêutica pouco se interessa em desenvolver medicamentos para tratar as doenças genéticas.
  Tanto é assim que a própria Sociedade Brasileira de Genética Médica denuncia que os recursos destinados aos hospitais universitários para desenvolver pesquisas na área precisam ser consumidos no atendimento aos pacientes.
  E enganam-se aqueles que acham que o problema está restrito a uma minoria. Estimativas apontam que atualmente cerca de 15 milhões de pessoas sejam vítimas de males de origem genética. Portanto, não faz nenhum sentido essas doenças continuarem sendo classificadas como raras.

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