Notícia e a insinuação
Notícia e a insinuação
Joel Samways Neto
É da história política brasileira deixar que as crises antecedam as soluções. Ninguém pensa preventivamente, ninguém aprende com a história alheia, ninguém aprende com a história passada. Somente quando, por exemplo, uma refinaria de petróleo comete pelo menos dois desastres ambientais inestimáveis é que as autoridades comparecem para dizer que dali para frente tudo vai ser diferente. É preciso que haja um escândalo dentro da administração pública em matéria de segurança para que governantes, parlamentares e a elite pensante se reúnam e digam que agora sim haverá reformas, implementos, gente, treinamento e salário para melhorar o setor. Porque os critérios de avaliação e valoração mudaram, e hoje a atenção da classe governante só será atraída se o assunto trouxer tamanha comoção popular que garanta minutos e mais minutos em rádio e televisão, centímetros e mais centímetros de espaço nos jornais e revistas. Senão, esqueça.
Assim sendo, espero que façam alguma coisa com a imprensa sensacionalista, porque a crise moral já está explodindo o termômetro.
Nunca se viu tanta insinuação feita em cima de traços noticiosos quanto atualmente. Algo que poderia ser chamado de notícia-qualquer-coisa, furo-qualquer-coisa, manchete-qualquer-coisa, a pretexto daquele papo que já estava qualquer-coisa, pra lá de Marrakech (porque bêbado). Há certos jornais que parecem alcoolizados, não conseguem uma coerência mínima entre as letras garrafais (!) e o texto. O título costuma dizer mais do que o conteúdo que anuncia. Aliás, às vezes chega a ser falacioso, injurioso, difamatório e calunioso.
Esse fenômeno foi constatado por Luís Nassif, um dos melhores jornalistas de economia do País, que sempre que põe o dedo nessa ferida acerta em cheio. Antológica sua coluna Dos fatos e das manchetes (29/07), publicada em vários jornais. É daquelas que todo professor de jornalismo que se preze, e que tem um pingo de responsabilidade, deveria levar para sala de aula e destrinchar junto com os alunos. Nassif fez, como ele mesmo disse, um breve apanhado do mau-uso de manchetes feita na imprensa que cobre política. Por exemplo, o caso em que o ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, afirmou que almoçara com o presidente Fernando Henrique no dia da crise cambial, informando-o sobre o risco sistêmico do mercado, porém declarando que nada dissera sobre a ajuda aos bancos Marka e FonteCindam e um jornal fez a seguinte manchete: FHC sabia da crise na BM&F, afirma Lopes. Ou então aquela em que o ministro Pedro Malan, prestando depoimento, disse que não tinha sido comunicado do socorro aos tais bancos, e que esse fato não poderia fundamentar nenhuma ilação sobre a natureza das operações realizadas e um jornal fez a seguinte manchete: Procurador diz que suspeita aumentou.
Do mesmo modo, o tratamento que uma revista de circulação nacional deu às fitas, produto de suposto grampo, com gravação de uma suposta conversa com o juiz Lalau. Toda editada, toda esquisita, montagem grosseira, clara demonstração de que tudo não passou de artimanha. Mas o marketing de vendas chegou a antecipar em 24 horas a distribuição dos exemplares. Era como se a coisa fosse o furo# do ano. Na verdade, era um furo-qualquer-coisa. Pois esse parece ser o grande sinal da crise que está manchando a folha de serviços da imprensa nacional: dizer qualquer coisa, com base na liberdade de expressão e no direito de o cidadão ser informado. Nem que isso custe a honra, a imagem, o nome, a dignidade das pessoas.
E depois que esses segmentos obscuros da mídia descobriram a veia exibicionista de alguns integrantes do Ministério Público, o negócio virou festa. À parte os agentes ministeriais responsáveis, lúcidos, que à imprensa dão declarações bem embasadas em provas ao menos credíveis, há casos de evidente linchamento moral. Um autêntico dane-se contra os direitos e as garantias individuais contidas na Constituição desta República. E em relação a isso, o chamado direito de resposta é absolutamente inócuo.
A questão é que não houve, ainda, devastações morais suficientes a ponto de sensibilizar os legisladores a criar instrumentos de contenção (censura!, gritarão os levianos) desse direito de a imprensa insinuar para não dizer mentir. Aguardemos, então.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba





