Muito engraçada a nova propaganda oficial sobre a campanha da nota fiscal. Comédia em curta-metragem, com tomadas do comerciante que abocanha um pedaço de pizza, de sanduíche, antes de entregá-lo ao freguês, ou o homem da banca de jornais que primeiro dá uma boa tragada no cigarro avulso e depois, descaradamente, entrega-o ao comprador. Metáfora bem-humorada do que acontece quando são adquiridas mercadorias sem a devida nota fiscal da compra.
Outra sugestão para essa comédia da vida real seria mostrar o freguês da padaria, que depois de feito o pedido, recebe uma papeleta (normalmente feita de recorte de embalagem de maços de cigarro, de verso branco e anverso ilustrado); daí, caminha dentro do estabelecimento com aquela papeleta na mão, dirigindo-se ao caixa. Este, com a gaveta da caixa registradora sempre aberta, limita-se a tascar um carimbozinho com a palavra ‘‘pago’’ no tal recorte de papel. O freguês retorna ao balcão para apanhar o pacote (de pães, por exemplo), e entrega o maldito papelzinho à atendente, que pode simplesmente amassá-lo e arremessá-lo no lixo, ou, com ar circunspecto, espetar a papeleta num desses pregos de mesa. A operação toda se reveste de um ritual interessante, tamanha a importância que o dono da panificadora e seus funcionários atribuem ao tal papelete. Dá até a impressão de que algum fenômeno contábil misterioso ocorreu durante a compra dos pães - afinal, havia uma papeleta contendo um lançamento de próprio punho da atendente, e ainda um carimbo do próprio caixa. E você, freguês, ficou segurando, pessoalmente, o documentozinho por uns dois minutos! A rigor, é óbvio, não aconteceu absolutamente nada de relevante do ponto de vista contábil ou fiscal. Aquele monte de papeletas deverá ser certamente incinerado quando findar o expediente, durante alguma cerimônia macabra ao som de estrondosas e horripilantes gargalhadas do dono da panificadora e seus seguidores.
Esse mesmo curta-metragem poderia ser feito em relação ao dono de uma mercearia, ou loja de autopeças, açougue ... Bastaria mudar o vestuário dos atendentes, o produto de compra e a decoração do estabelecimento. Porque na vida real, não é raro, é exatamente isso o que acontece. E vá experimentar insistir em levar um comprovante fiscal. Você pede um tíquete da caixa registradora (aquela que fica sempre com a gaveta aberta) e o funcionário se desculpa por não poder providenciar o documento, alegando a falta de papel. Se você disser que não tem importância, que você pode esperar a substituição do rolo, ele acabará confessando que, na verdade, o problema era que a máquina estava estragada, que não deu tempo de mandar vir um técnico etc. etc. Claro, que a maioria dos fregueses, por comodismo ou camaradagem, normalmente deixa estar para lá, tudo bem, da outra vez eles pegam a notinha. Agora, experimente dizer ao funcionário do caixa que você não se importa em esperar que ele preencha uma nota fiscal, do bloco de notas - sim, isso mesmo, daquele bloquinho ali, com papel carbono e tudo. O sujeito vai dar um sorriso, inclinar a cabeça para o lado (colocar o boné para trás da cabeça), apoiar as duas mãos sobre a caixa registradora estragada, olhá-lo diretamente nos olhos e perguntar em tom de brincadeira: ‘‘- Ora, freguês, tanto incômodo por causa de R$ 2,50?’ E você então responderá: ‘‘- Incômodo algum, afinal todos nós precisamos tomar conta do Tesouro Público do Paraná, não é mesmo?’ (Mas apenas tente não terminar essa frase com umas piscadelas para o olhar indignado do funcionário. Iria enfurecê-lo)
Regra geral do comerciante, diante dessa teimosia cívica: o caixa vai buscar o bloco de notas, vagarosamente. Segura o bloco, olha para o freguês e suspira com enfado. Assopra a poeira do bloquinho. Olha de novo para o freguês e começa, vagarosamente, a preencher (com garatujas) a nota da fatura. E a fila do caixa aumentando cada vez mais, e as pessoas reclamando, pressionando, onde já se viu uma bobagem daquelas, que quem você pensa que é. Enquanto isso, o tal funcionário lá fazendo cera, esfregando a caneta que deu de falhar justo naquela hora. Se você conseguir sair com essa nota fiscal da padaria, sem ser linchado, relaxe e sinta orgulho do seu senso de responsabilidade cívica.
O senso comum ainda permanece ávido de cometer a punga com o percentual do ICMS (a ponto de haver quem nem se preocupe em ter caixa registradora. Na Capital, sim senhor). Propagandas engraçadinhas podem fazer rir, mas não conseguirão revolucionar a mentalidade social (tarefa para educação permanente - escolar e doméstica -, não para vinhetas).
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná.

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