Nossos presos (e um grande crime) - Renzo Sansoni
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 03 de agosto de 1998
Renzo Sansoni 
Se o médico não se aprofundar, exaustivamente, no combate à doença de seu paciente, com muita certeza tudo ficará como dantes, piorando este, descabelando aquele e a enfermidade se alastrando. Este é o estado de coisas em que se encontram os presos por este Brasil a fora. Ainda não se deu atenção/resolução científica ao problema carcerário/penitenciário tupiniquim.
Porém, quase todos os dias a imprensa nos mete uma agulha lancinante na consciência, apontando uma barbaridade tão complexa e desnorteante, qual seja a situação dantesca de nossos encarcerados e infelizes. É o que vejo, principalmente pela televisão e lendo os jornais. Não conheço, na intimidade, nenhuma prisão, cadeia, penitenciária ou coisa do gênero. O que é um defeito enorme, notadamente para quem tem diploma de curso superior num país tão pobre de liderança inteligente e honesta...
E aí está, o maior obstáculo à solução definitiva e humanística para nossos detentos: a maioria da cidadania, tida como responsável neste país, não conhece o inferno terrestre onde estão sepultados, vivos, os marginais de tantos e variados crimes. E nem quer saber das convulsões e comoções que rolam por lá. E votariam para que a imprensa fizesse o favor de esquecer o assunto, para não incomodar. Donde se conclui que estes cidadãos não são tão responsáveis como se deseja e necessita neste Brasil das penitências.
Deixar os criminosos dependurados nos arpões pontudos e dilacerantes de uma polícia mal-remunerada, despreparada psicológica e afetivamente; rancorosa e ótima de cassetete (ressalvando as boas exceções) é outro enorme erro de base. Sendo o mesmo que jogar ratos entre gatos cruéis e famintos. Isolá-los de seus familiares, de suas mulheres e filhos é outra grave anomalia secular, quando se tem a pretensão de resgatá-los para a vida que intitulamos cristã. Não conheço nenhum sistema educacional eficiente e pedagógico que não requisite a estrutura familiar de apoio.
Já passou da hora de ministrar educação moral e cívica, em toda a profundidade, para nossos detentos. Perguntinha danada: será que gradearmos vários homens num cubículo não será o mesmo que implodirmos sua dignidade e aniquilarmos, para sempre, seus sonhos de reorganizar a vida? Quantos crimes, inclusive sexuais, temos consentido que se pratique contra estes companheiros de barco e de evolução, num comodismo que ainda irá nos custar muito choro e ranger de dentes! E o trabalho para eles, como encaminhar?
Não se justifica o erro ditatorial de trancafiá-los para a inércia e o nada fazer. No mínimo, é um desrespeito ao princípio bíblico: Comerás o pão com o suor de teu rosto e a inteligência do teu coração. Mente desocupada, oficina do diabo. Ditado popular e tão recheado de verdade profunda e límpida. O Brasil tão pobre, tão poucos brasileiros trabalhando e nossos presos clamando (sim, a maioria clama) por uma oportunidade de minorar seus desencantos nesta reencarnação, por intermédio de uma ocupação decente e útil!
Quantos milhões/bilhões de horas/trabalho desperdiçadas, mal aproveitadas, com tantos braços cruzados nas prisões! Não venho aqui fazer apologia de nossos criminosos. Errou, pecou, tem que pagar; e pagar bem caro. Venho sim, lançar mais polêmica, mais fogo e mais calor humano, sem vaidade e/ou preconceito. Se eles cometeram horrorosos crimes segundo nosso ponto de vista, também nós pulamos a cerca da insensatez, sob a ótica dos Superiores Tribunais da Consciência e do Amor ao Ser Humano. O nosso crime é a omissão, o não-fazer, o não solucionar. É o não exigir que as autoridades competentes saiam do escuro e das sombras. E a condenação para nossa indolência será muito pesada e irreversível, sem apelos para instâncias superiores...
RENZO SANSONI é médico em Uberlândia (MG)


