É comum encerrarmos o ano com retrospectivas, pela análise de fatos marcantes, sobretudo grandes catástrofes. Ainda que não tenhamos a exata proporção desses acontecimentos por não termos vivido dentro de seus contextos, eles sempre nos afetam, fazem-nos refletir, fazem-nos buscar respostas que não nos convencem, criam sentimentos de impotência, angustiando-nos, gerando o temor do futuro, do vir a ser, inegável nos tempos atuais.
É evidente que o medo esteve sempre presente na história da humanidade como fator ativo ou passivo, fazendo avançar ou recuar. Outrora era o medo das pestes, das guerras, dos invasores bárbaros que assombravam as populações. Na sociedade pós-moderna o medo é trazido pela certeza que nada é certo, nada é seguro, pela prevalência de interesses econômicos sobre os sociais coletivos, do virtual sobre o real, do poder sobre a norma, do existir sobre o viver.
Este temor ronda a todos os habitantes deste Planeta em suas diversas versões e sob as mais variadas formas: o desemprego, a violência, a exclusão, a escassez de alimentos e de água, o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio (OMC).
Muito já se escreveu sobre o desemprego. Alguns cientistas sociais míopes até afirmam que ele é fruto da globalização e que não nos resta mais do que consolo, abnegação e medo. Amanhã poderemos ser os próximos desempregados, ou usando a nova nomenclatura, ‘‘as vítimas da globalização’’.
A violência, também muito debatida, tornou-se banal: roubar/ser roubado, violentar/ser violentado, matar/morrer, destruir/ser destruído, boicotar/ser boicotado, são os binômios inseparáveis da sobrevivência em certas localidades do planeta. A banalização da violência passa a existir onde a vida deixou de ser um bem sagrado.
A exclusão se dá em todos os setores e de modo cruel retira do indivíduo direitos a um mundo que também lhe pertence. Cada vez maior é a lista dos ‘‘excluídos’’ , palavra que também agrupa os marginalizados, descamisados, desmunidos. Excluído não é o pobre pobre. É todo aquele que por suas características ou pela ausência delas não pode fazer parte do sistema.
Exemplos modernos são os idosos que não se submeterem ao computador; os jovens que não tiverem em seus currículos vivência no exterior; os executivos que não tiverem um MBA nos Estados Unidos; os que não dominarem três línguas. O que dizer então da exclusão em níveis mais reais, aquela que afeta a camada social infinitamente menos favorecida?
A insegurança alimentar aqui se traduz por escassez e manipulação dos alimentos. A falta de alimentos está ainda ligada a fatores como regiões subdesenvolvidas e populosas, seca, guerras, atos políticos, ausência de solo adequado para plantio, mas será mais abrangente, como a interdição de se comer o que se tem, pelos riscos detectados, como a presença da dioxina e da doença da vaca louca que, além de colocarem uma população contra o consumo de carne, conseguiram também mostrar a governos fortes seus pontos de fragilidade.
A manipulação de alimentos pela forma de organismos geneticamente modificados ou transgênicos traz incertezas quanto aos efeitos secundários e futuros sobre o organismo humano e interfere em uma cadeia estruturada pela natureza cujos efeitos também são imprevisíveis. Por mais que cientistas a serviço de grandes multinacionais e instituições de pesquisa digam que a solução para a fome no mundo esteja no plantio de transgênicos, eles não conseguem demonstrar ausência de riscos. Seria mais prudente adotar o ‘‘princípio da precaução’’ que foi negado no caso da doença da vaca louca.
O FMI, o Banco Mundial e a OMC são novas ordens de nossos tempos, novos temores. Ainda que o FMI e o Banco Mundial tenham entendido que há a necessidade de investimentos para combate à pobreza, financiando projetos sociais, temos consciência que estamos todos sob suas ordens e que eles estão às ordens de poderosos e que o princípio da sobrevivência impera, ou seja, em estado de necessidade que padeçam os pobres.
A OMC, que se traduz em ‘‘quem vende para quem, quanto, quando, como’’ se deu o papel de jurisdição transnacional capaz até de deflagrar o caos de segmentos comerciais considerados estáveis. É apontada como a besta do apocalipse tal o temor que inspira.
Este é o quadro do medo neste fim de milênio, medo comum a todos os habitantes deste planeta. Ao menos neste aspecto não há nada que nos separe de países desenvolvidos ou subdesenvolvidos: somos todos iguais frente aos acontecimentos que nos deixam vulneráveis. Para eles não há distinção de ricos, pobres, miseráveis. Poderíamos ousar dizer que aqui se concretiza o maior dos princípios, o da igualdade.
Contra tantos temores ainda contamos com nossa capacidade fantástica de superação, nosso otimismo e solidariedade, nossa vontade de vencer o inimigo – eterna luta contra o mal – nossos bons sentimentos, nossa busca pela moral, pela ética, nosso desejo de enfim encontrarmos a terra prometida.
Ainda que o medo seja um sentimento incômodo, se bem aproveitado traz mudanças positivas, tornando-nos mais cautelosos, mais observadores, mais atentos aos novos perigos, fazendo que nossas decisões sejam mais responsáveis, que elas sejam tomadas tendo em vista todas as implicações, os beneficiários, os atingidos, sem imediatismos. Enfim, decisões de pessoas maduras comprometidas com o mundo.
- CILIANE CARLA SELLA DE ALMEIDA é advogada em Londrina
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