Nosso futuro nas entranhas de um sapo - José Fernando da Silva
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de novembro de 1998
José Fernando da Silva 
Definitivamente, o mundo pertence aos cínicos. O povo brasileiro - este ente puramente etéreo que pulula a cabeça dos políticos durante quatro anos e só toma forma de gente na hora do voto - foi iludido mais uma vez pelo agora todo-poderoso presidente Fernando Henrique Cardoso, não mais só amigo e conselheiro de Deus, mas professor Dele. FHC prometeu-nos 7,5 milhões de empregos e nos oferece agora um seguro-desemprego mais dilatado.
Antes da eleição foi denunciada pela oposição a intenção do governo de se maquiar a crise na qual o País estava mergulhado. Boa parte de nós fingiu que ouviu e a outra parte simplesmente ignorou os vaticínios de Lula & Cia. Veio a eleição e no dia seguinte podíamos ver a inscrição do inferno de Dante na porta do Planalto: Aqui não há esperança. E não há mesmo. Todos os prognósticos, até mesmo os mais otimistas, apontam para o caos, para a desesperança, para a estagnação, para as labaredas eternas da dívida externa crescente e impagável.
FHC contra-ataca e cobra uma colaboração impossível e servil das oposições, personificada agora na Central Única dos Trabalhadores (CUT), que denuncia o caráter recessivo das últimas medidas econômicas e o consequente desemprego. FHC vai mais longe, e classifica os analistas estrangeiros de opiniáticos internacionais, por eles dizerem o que é ululante para o resto do mundo: que de há muito estamos quebrados e fervendo dentro do caldeirão das medidas hipócritas do governo para pagar os agiotas internacionais. Porém, de propósito, esquece-se nosso Pangloss-presidente que são nestes opiniáticos que a dinâmica do mercado financeiro está firmada.
Em tempos remotos - quando não existiam as estatísticas e os métodos científicos - todo soberano de juízo consultava o Oráculo de Delfos para saber de um possível sucesso numa guerra ou numa tarefa qualquer. A sacerdotisa responsável pelo templo, Pítia, aspirava os vapores inebriantes provenientes de uma fenda na terra e dava o parecer do deus Apolo. A resposta vinha sempre em forma do que chamamos hoje charada. O sujeito recebia o prognóstico e o interpretava a seu modo. E assim boa parte da história da civilização helênica foi levada adiante.
Sei que estamos no final de século, virada de milênio, tempo por demais propício aos devaneios do obscurantismo e do sincretismo religioso. Profetas do apocalipse brotam aos montes pelas esquinas, e toda hora na TV aparece alguém que diz predizer o futuro analisando as entranhas de um sapo. Mas daí chamar os modernos analistas econômicos de opiniáticos é de um simplismo que vai além do cínico e resvala no escárnio. Afinal, quem está na feira procura não comprar laranja podre; seria uma grande imbecilidade e, com certeza, o mercado financeiro internacional pode estar cheio de tudo, menos de imbecis.
E se os prognósticos deles fossem favoráveis à nossa política econômica? Na mesma linha de raciocínio, FHC mandaria erguer um altar para tão bondosos homens, que só pensam no bem do Brasil e procuram orientar da melhor forma os investidores estrangeiros?
Pobre povo brasileiro, que se torna cada vez mas etéreo pela eterna fome, que tem um presidente que se inebria com os vapores do poder e não reconhece seus erros. Nesta tragédia tropical, nem Pítia e Apolo para predizerem um destino doce para os brasileiros.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Londrina


