Em 1916, Benjamin Constant definiu partido político como ‘‘uma reunião de homens que professam a mesma doutrina’’. Bela definição, na qual o partido aparece como portador de um ideal, como porta-voz de uma doutrina. Mas o que deveria ser, sempre se afasta do que é, e com certeza por isso, Edmund Burke, mais realista e cauteloso, ou quem sabe mais conhecedor na natureza humana, concluiu que partido é, simplesmente, ‘‘uma organização com vista à tomada do poder’’.
No Brasil, os partidos políticos por conta de sua origem, nunca se enquadraram muito bem na concepção de Benjamin Constant, e de uns anos para cá cada vez mais se assemelham a clubes de interesses, destituídos de ideologia, disciplina e programas coerentes. Funcionam apenas em épocas eleitorais, quando agregam interesses particulares pelo poder. Agora, estão de tal modo descaracterizados, que muitos chegaram a perder seus contornos. Tal coisa acontece não apenas por causa das coligações, que são procedimentos políticos normais, mas porque estranhos apoios são oferecidos por partidos àqueles que, aos olhos do eleitor comum deveriam ser combatidos como adversários.
Chama-se a essa exótica mistura de apoios, suprapartidarismo, e nela não se distingue muito bem quem é quem, ou quem está com quem. Isto, aliás, não tem a menor importância para o povo. Faz tempo que os brasileiros já sabem que não existem partidos na concepção clássica, pesando por isso na hora da urna muito mais a figura do candidato, e não o partido.
Assim, tudo corre naturalmente. Alegres e festivos, seguem em frente candidatos e eleitores, cada qual no seu caminho, sem nenhum projeto comum, sem qualquer visão mais ampla, o que reflete um grande paradoxo de nossa época: na era globalizada, onde tudo se unifica, a ação política está cada vez mais individualizada.
Não faltam exemplos sobre o que estou expondo. Vejamos a ‘‘Folha de S.Paulo’’ do dia 27 deste, onde consta: ‘‘Peemedebistas paranaenses inauguraram ontem em Curitiba um comitê suprapartidário de apoio a FHC, a Álvaro Dias (PSDB), candidato ao Senado, e a Requião (PMDB), que disputa o governo e diz que apóia Lula’’. Diga-se a propósito desta notícia, que o candidato ao Senado, Álvaro Dias, tornou-se uma figura emblemática do suprapartidarismo paranaense, só tendo que tomar cuidado para não ser vencido pelos votos brancos e nulos como já aconteceu com outros candidatos a senador neste Estado. Isto com certeza lhe pareceria desagradável, apesar de que será eleito praticamente por aclamação suprapartidária.
Claro que essas coisas não acontecem só no Paraná. No mesmo jornal pode-se ler outra nota de igual teor: ‘‘Apesar de ter declarado seu voto em Lula em debate na TV, Rossi não vai atacar FHC. Se eleito, sinalizará para o presidente que não será uma pedra no sapato. No Rio, o pedetista Garotinho planeja acenar do mesmo jeito para o Planalto, caso consiga vencer o pefelista César Maia’’.
A tônica suprapartidária acentua-se, pois, em todos os Estados numa demonstração inequívoca de que não existem partidos no Brasil, muito menos partidos nacionais. Apenas tecem-se arranjos municipais e estaduais, levando-se em conta maior lucro político.
No topo, candidatos à presidência da República comandam o espetáculo e ditam o ritmo do suprapartidarismo. E a balança pende sempre para quem está ganhando. Por isto, candidatos à Presidência se voltam contra o que está à frente na corrida eleitoral. Isto explica por que todos eles, de João de Deus em diante, ‘‘batem’’ em Fernando Henrique Cardoso. E esclarece o ato falho de Luiz Inácio Lula da Silva, que deu graças a Deus porque o desemprego está aumentando, o que aliás não é verdade.
Pode-se também quase sentir a alegre esperança que percorre as hostes petistas diante da crise russa, que pode desencadear a crise financeira mais grave dos últimos cinquenta anos no mundo inteiro. Diante desses acontecimentos, cuja culpa o PT fatalmente atribuirá a Fernando Henrique, até a viagem que Lula faria à França para visitar o primeiro ministro Lionel Jospin (dando sequência à sua obsessão de se entrevistar com políticos estrangeiros importantes) foi cancelada. Como disse o animado secretário de Relações Internacionais do PT, Marco Aurélio Garcia: ‘‘Pode haver deterioração rápida no cenário e a oposição tem que estar aqui para se pronunciar’’.
A crise deverá integrar os programas gratuitos do candidato petista, dando novo ânimo aos marketeiros de Lula, tão sem imaginação. Mano Brown, que já apresentou no horário do PT um quadro apocalíptico, existente por causa do ‘‘preibói’’ (leia-se Fernando Henrique), poderá voltar às telas com um novo ‘‘rap’’ sobre a desgraça da bolsa de valores.
Observando essas coisas não fica difícil lembrar a definição de Adam Smith sobre o político profissional, ressalvando-se, é claro, as exceções que sempre existem: ‘‘Aquele animal insidioso e traiçoeiro cujas recomendações flutuam ao sabor dos acontecimentos’’.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga em Londrina

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