Sexta, 11 de setembro. Daqui a algumas horas, estarão na Internet as 445 páginas do relatório do chamado promotor especial Kenneth Starr acusando o presidente Bill Clinton pela prática de quatro crimes. Até quem não gosta dos EUA ou dos Clinton, sabe da história. O mundo sabe. São decorrências dos tais ‘‘escândalos sexuais da Casa Branca’’. Coisa que, aliás, lida assim, dá a impressão de que o que havia na sede do governo norte-americano eram orgias, bacanais. Na verdade, o negócio estaria mais para ‘‘frustrações sexuais da Casa Branca’’. Porque nem o presidente nem Monica Lewinsky, sua parceira no negócio (affair, ok? Love affair), no negócio de amor, admitiram relações sexuais na acepção literal da frase. O presidente, depondo perante o Grande Júri, disse que foram ‘‘relações impróprias’’. ‘‘Impróprias’’ no duplo sentido, certamente. Os detalhes do seu depoimento não foram divulgados. Lewinsky, porém, alegou sexo oral.
Não foi, então, aquilo que em nosso país configuraria adultério, uma violação do dever de fidelidade. Porque aqui o rigor da lei exigiria ‘‘cópula perfeita’’, ou, pelo menos, o suficiente para evidenciar ‘‘penetração do membro viril, de modo natural, na vagina da mulher e na efusão de verdadeiro sêmen dentro do órgão feminino’’ (essa jóia está no Direito de Família, Cia. Editora Forense, livro de Orlando Gomes, citando Canton e suas considerações sobre as ‘‘causas canônicas’’ da separação conjugal). Quer dizer, para ser adultério mesmo é preciso que os protagonistas do fato estejam, como diriam os romanos, solom cun sola, nudum cum nuda, un eodem lecto jacentem (tradução livre: ‘‘Nus, tocando-se planta do pé com planta do pé, deitados na mesma cama’’). Segundo essa doutrina, não seria adultério a ‘‘cópula frustrada’’, nem o ‘‘coito vestibular’’, entre outras tipificações.
Agora, outras condutas há que embora não caracterizem adultério, apresentam-se como ‘‘quase adultério’’, sendo compreendidas na classificação de injúria grave (são carnais mas não muito; nessas se inclui a tal oscula libidinosa). Ora, ora, por que estou perdendo tempo com essa estimulação mental? O que quer que tenha havido, se foi total ou quase, se satisfez ou se deu sentimento de culpa, isso não é, absolutamente, um assunto para ser debatido em público - muito menos em público planetário! Isso é uma questão entre Bill e Hilary. Esta, inclusive, já manifestou seu apoio ao marido, num evidente reconhecimento do seu remorso e num deferimento ao seu pedido de perdão. Novamente, se fosse no Brasil, o assunto estaria encerrado, pois aqui o adultério pode ser perdoado pelo cônjuge inocente. Se houve alguma briga, foi briga de marido e mulher, na qual ninguém deve meter a colher.
O que estarrece é essa situação bizarra em que o homem mais poderoso da Terra, porque presidente de uma superpotência econômica e bélica, vê-se acuado em razão de uma escorregadela afetiva! Obviamente, não estou justificando nada, estou apenas apontando (o que outros também já fizeram) para a desproporção existente entre causa e consequência. É gritante o oportunismo dos republicamos nessa exploração de tecnicismos jurídico-processuais decorrentes de um tabu puritano antiquado da sociedade norte-americana (antiquado, sim, haja vista às pesquisas de opinião, revelando que cerca de 70% dos cidadãos aprovam Clinton como presidente dos EUA, apesar de escorregadela). Querem vingar Nixon, presidente republicano que renunciou ao cargo depois do escândalo de Watergate, acusado de corrupção. Que comparação!
O que temos nós, brasileiros, a ver com a possibilidade de Bill Clinton sofrer processo de impeachment e ser defenestrado da Presidência dos EUA? Para começar, somos sul-americanos - portanto, americanos. Na organização mundial, a Nova Ordem, seremos todos da Casa da América, enquanto os europeus serão da Casa da Europa, os asiáticos, da Casa da Ásia, os africanos, da Casa da África. Sistemas de integração econômica, social, política, cultural e ecológica, que virão-a-ser nem que demore cinquenta anos. O que ocorre nos EUA nos interessa.
Depois, e principalmente, Bill é nosso amigo. É amigo dos brasileiros, é amigos dos latinos. Quando esteve no Brasil, jogou bola com nossas crianças. Conforme disse Antonio Grimm, um observador do mundo, isso irritou bastante os conservadores norte-americanos, desagradou a turma da política da subserviência externa. Temos certeza de que seu vice faria a mesma coisa? Não, não temos.
As Américas do Norte, Central e do Sul, bem como todo o Bloco Ocidental, não podem ficar à mercê de um golpe de oportunismo político que está fragilizando nosso amigo Bill.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado do Paraná em Curitiba

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