O sociólogo Zygmunt Bauman, ao conceituar a "modernidade líquida", deliberou que toda a rigidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada pelo autor como modernidade sólida, dão espaço para ao imediatismo, à lógica do consumo, da satisfação e da artificialidade. Como consequência, vivemos em uma época de incertezas, fluidez e insegurança. Invariavelmente, as teses acadêmicas são abstratas ou mera projeções, mas literalmente estamos imersos nesse conceito de urgência e fluidez.

Em termos, estamos vivenciando mudanças estruturais em nossa sociedade enquanto nossas instituições estatais não acompanham essa "evolução". Se seguirmos a lógica das mídias e redes sociais, nenhum governante sobreviverá incólume diante das denúncias – nem sempre verídicas, tão normais em tempos de pós-verdade.

É óbvio que a corrupção é fator preponderante das mazelas de nosso país. Mas enfrentamos problemas até maiores com o gigantismo do aparelho estatal e sua ineficiência, ao mesmo tempo em que parcela significativa do capital privado aproveita a situação para aumentar ainda mais as desigualdades sociais. Corporativismo entre classes e grupos em prol de interesses próprios. Nossos agentes políticos necessitam implementar reformas; mas não acredito que eles tenham essa disposição de alteração do status quo.

O Estado policial instaurado deve cumprir seu dever e punir aqueles que iludiram os eleitores no sufrágio. Mas deve também fiscalizar suas próprias entranhas. Aliás, é necessário observar que o Judiciário invariavelmente deixa de cumprir sua função jurisdicional e literalmente altera a própria lei e normas constitucionais, assim como o evitar os flagrantes excessos cometidos sobre ótica maquiavélica de que os fins justificam os meios.

Infelizmente, mesmo adotando o conceito de Bauman, com a sociedade aflita por mudanças, é estranha a concepção de que o Brasil é uma "democracia sedimentada", tão invocada por pessoas públicas. Infelizmente, é mero exercício retórico, pois a partir do momento em que eleições são resolvidas com a utilização do capital financeiro, ao invés do acolhimento de ideias e projetos e confiança na capacidade do escolhido em implementá-los. Caminhamos trilhas estranhas e por vezes ininteligíveis, transitando pelo retorno de uma política extremamente conservadora envolta pelo manto de um liberalismo que acentua as diferenças sociais, e o populismo grosseiro incapaz de assegurar a sustentabilidade de seu projeto político e especialmente econômico. São ilusórias as figuras da direita e esquerda, pois os principais antagonistas políticos possuem bases ideológicas semelhantes, prevalecendo a figura do político. Não temos muitas opções a não ser adotar o pragmatismo no exercício do direito de voto.

Da próxima vez que se empolgarem com um discurso vigoroso, de uma mensagem que reflete exatamente o que querem ouvir, questione-se: é possível e o candidato tem capacidade para fazer isso? Já temos muitos votos nulos, branco e abstenções... a última coisa que precisamos é continuar elegendo pessoas que sabemos que não fazem ou não farão nada para nos tirar dessa mediocridade. Em tempos de liquidez contemporânea, período em que nunca tivemos tanto acesso à "informação", infelizmente não conseguimos concatenar todos os acontecimentos e fatos. E, com isso, nos afogamos em lama, lodo e outros excrementos que é o nosso cotidiano.

SEBASTIÃO SEIJI TOKUNAGA é advogado em Londrina

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