Há um ano o Brasil começava a descobrir que a incúria de seus administradores públicos havia permitido que os reservatórios de água das usinas hidrelétricas baixassem a níveis críticos. Consequentemente, o potencial de geração de energia estava muito aquém da demanda e tornava-se urgente empreender uma estratégia de guerra: o racionamento. Chamada a colaborar, a desligar eletrodomésticos, a mudar padrões de comportamento e a atravessar um inverno e um verão gastando menos energia do que as rotinas de conforto exigiam, a sociedade fez-se presente. O País saiu da linha crítica e os reservatórios parecem ter ganhado fôlego – ao menos, durante o ano eleitoral de 2002.
Na quarta-feira, o Congresso Nacional decidiu começar a aprovar uma medida provisória baixada pelo governo federal que é uma paulada no bom comportamento cívico durante os períodos de ameaça de apagão. As contas residenciais de energia terão um sobrepreço de 2,9%, e as comerciais, de 7,9%. Isso é necessário, argumentam os tecnocratas estatais e os políticos oficiais, para compensar as empresas concessionárias de energia elétrica (públicas e privadas) das perdas acumuladas durante o racionamento. Está decretado: somos idiotas. Ou, por outra, estão a nos tratar como perfeitos idiotas. Não houve apagão porque o povo racionou. Para racionar energia, a população se reeducou. Hoje há, em cada família de classe média, em cada casebre de periferia, em cada bela casa dos bairros mais sofisticados, uma noção mínima dos prejuízos do desperdício.
Só atravessamos o risco do racionamento porque as empresas que geram, transmitem ou distribuem energia não se prepararam para o crescimento da demanda. Não foram ousadas nas suas políticas de investimento. Não cumpriram as planilhas. E fizeram isso porque são más gestoras dos próprios negócios. Por que, então, teremos de pagar essa conta? Por que os consumidores residenciais e comerciais de energia – a ponta do consumo, o setor imenso e desorganizado da sociedade, a sociedade civil amorfa (para lançar uma expressão) – terão de financiar a inépcia e a incompetência dos gestores públicos? Sugiro que nós, eleitores, votemos contra quem votar a favor dessa medida que nos soará como um tapa, uma tunga.
LUÍS COSTA PINTO é jornalista em Brasília

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