Minhas avós viveram na roça. Mesmo destino da minha mãe, Maria. Criaram muitos filhos. Minhas avós cuidaram de feijão, de milho e da família. Minha mãe ajudou a plantar e a colher milhares de braçadas de verduras, que enchiam carroças e mais carroças, que meu pai, Sebastião, entregava em Londrina.
Minhas avós não aprenderam a ler ou escrever. Minha mãe conseguia ler a Bíblia e jornais atrasados que embrulhavam os vidrinhos de soro anti-ofídico que o Instituto Butantã mandava para casa, em troca das cobras que recolhíamos no terreiro ou no meio do mato. Ela levou muito tempo para comprar um rádio de pilha e só conheceu televisão nos anos 70.
Todas elas tinham aquelas informações básicas, coisas de sobrevivência. Mulheres do seu tempo. Ajudavam curar lombriga das crianças – delas e das vizinhanças –, tratavam de picada de cobra peçonhenta. Minha mãe perdeu as contas de quantos partos fez, quantos umbigos cortou. Quantas horas passou de costas curvadas lavando roupa no rio, com sabão de cinza e soda. Elas dividiam toda sua cultura, seus conhecimentos, de graça, por solidariedade.
Fui me interessando por desvendar o mundo. Minha mãe me incentivava a estudar, dizendo que queria vida melhor que a dela para os filhos. Frequentei escola pública e fiz faculdade quando já estava casada. Tive os filhos quando era professora. E entrei na política, na rasteira de movimentos de reivindicação pelos direitos e pela maior presença das mulheres em todos os setores.
Minha geração foi marcada pela influência do rádio. Tempos em que a BBC de Londres trazia as últimas notícias do Brasil e do mundo, já em português. Quando Getúlio Vargas morreu, foram suspensas as aulas e a gente ficou o dia inteiro ouvindo aquelas músicas tristes, solenes. No mais das vezes, Nelson Gonçalves, Emilinha Borba, Ângela Maria ou Tonico e Tinoco é que nos alegravam.
Quando pude, fui ao cinema. Saí de lá deslumbrada. E guardo até hoje algumas imagens de ‘‘Suplício de uma saudade’’. Filmão. Dali até o mundo passar a ‘‘aldeia global’’ foi um pulo. Ficamos sem fronteiras. O telefone nos aproximou. E o impacto da televisão acelerou a velocidade do conhecimento. O preto e branco da realidade ganhava cores e um certo ar sofisticado com uma tela de plástico.
A sobrevivência, o dinheiro curto das famílias já obrigava as mulheres a sair das fronteiras do lar. Profissão feminina da época: professora. Entendia-se que essa era nossa melhor vocação: ensinar.
A inquietação natural, nossas diferenças, nossos sonhos nos levaram a abrir caminhos para novos rumos. Queríamos saber mais, aprender mais. Estar no mundo em outras profissões, ocupar outras áreas, sermos reconhecidas, valorizadas e respeitadas. Foi preciso vencer uma floresta de preconceitos para conseguir avançar nesse caminho. E as dificuldades ainda não acabaram.
O desenvolvimento do mundo agora atende pelo nome de ‘‘globalização’’. É outra realidade. A tecnologia coloca ao nosso alcance equipamentos que nem conseguíamos imaginar até anos atrás. O celular e a internet são artigos cada vez mais populares.
Minha neta Emiliana, de 4 anos, já sabe, como muitas outras crianças da idade dela, ligar o som e escolher, com o controle remoto, a música que quer ouvir. Tenho dificuldades, como muitos outros avós, em tirar minha neta Andressa, de 15 anos, da frente do computador antes das 11 da noite.
Para vencer tantos novos desafios, a alternativa continua sendo a mesma que a do tempo da minha mãe: Educação. Conhecimento é poder. Abre horizontes no mercado de trabalho, nos abre os olhos para a realidade, nos abre as portas para a cidadania.
Por isso, hoje, quando as mulheres pensam na educação, elas fazem muito mais do que mandar seus filhos para a escola. Cobram uma boa estrutura de colégios e salas de aula, questionam o aperfeiçoamento dos professores, realizam greves e comemoram projetos que podem melhorar a vida universitária, o ensino, a pesquisa.
É como cortar umbigos e parir novas vidas. Como no tempo de minhas avós, a mulher semeia o que acredita que tem de melhor para colocar na terra. E deseja para seus filhos e os filhos de seus vizinhos um futuro mais promissor.
EMILIA BELINATI é vice-governadora do Paraná

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