O acordo de presidentes sobre o gás boliviano, em Puerto Iguazu, não resultou em acordo algum, porque só a partir da semana que entra se começará a discutir o fundamental: o aumento do preço desse produto, que é utilizado pelas indústrias brasileiras e que escoa pelos gasodutos num volume de 30 milhões de metros cúbicos por dia. Aumentar preços significará alterar contratos, o que a nacionalização decretada pelo presidente Evo Morales não anula. A novidade é a declaração do presidente Lula contrariando o presidente da Petrobrás, que parecia falar pela boca dos poderes superiores sem antes consultá-los de que os investimentos brasileiros na Bolívia irão continuar. Ao menos o supremo mandatário da República alertou Evo Morales que espera o cumprimento dos acordos que estão assinados. Na questão do preço do gás, é certo que os contratos terão de ser revistos, porque os bolivianos sentem-se explorados face ao baixo valor que recebem. A subida do indígena Morales ao poder reacendeu ideais de elevação desse preço e dos impostos sobre as multinacionais que exploram gás e petróleo boliviano, porque o gás é a maior fonte de renda da empobrecida Bolívia. O então candidato fez promessas ao povo e agora está buscando cumpri-las. (Apenas en passant, é interessante rememorar que também o candidato Lula fez promessas aos brasileiros, mas não cumpriu nenhuma delas). Evo Morales não poderá recuar em seu projeto de elevação do padrão de vida de sua gente. Seu ato de nacionalização nem seria necessário, porque ele poderia apenas propor a reformulação contratual quanto ao preço do gás. Entre hermanos de semelhante ideologia, isto poderia chegar a bom termo. Ademais, a Petrobrás Bolívia tem dívidas a pagar, e não se sabe qual das duas nações as pagará. Quem nacionaliza, assume também os ônus, mas isto ainda não ficou definido. A Petrobras instalada no vizinho país arrecada em impostos, para os cofres bolivianos, cerca de 24% de toda a receita tributária da Bolívia. Para não falar da rentabilidade do gás que o Brasil compra e dos empregos que dá. Todo esse ganho não pode ser substituído tão facilmente pela nação vizinha. E o Brasil pode, a prazo mais longo, abandonar o gás boliviano e buscar alternativa nacional, via Petrobrás. Os bolivianos têm suas razões, porque nos EUA o gás natural é cotado em US$ 10 por milhão de BTU, enquanto o Brasil lhes paga menos da metade desse valor. Óbvio que Evo Morales e os patrícios olham atentos para esse fato. Verdade que nos EUA há uma pressão de demanda, por causa da crise no Oriente Médio, e tal preço pode cair. Na relação comercial Brasil/Bolívia o preço não flutua e o contrato é de 30 anos, o que representa uma garantia para o fornecedor. Morales pecou por não conversar com as partes antes da nacionalização que tem todos os indicativos de confisco das instalações brasileiras que lá estão, ou foi um erro estratégico. Resumindo-se, a situação criada tornou-se mais delicada para a Bolívia do que para os parceiros multinacionais. O que não se entende é a presença no ''imbróglio'' do presidente venezuelano Hugo Chavez que não foi atingido pela briga do gás parecendo que é um mentor do colega boliviano.

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