Quando escuto certos políticos ou leio o que escrevem, ou mandam escrever, ocorre-me a idéia de um curso de política que desse algumas noções básicas para aqueles que almejam representar o eleitorado em elevados cargos de poder. Naturalmente, os políticos espelham a própria sociedade brasileira, sendo desta uma amostra, e esse fato faz com que existam desde políticos brilhantes e cultos como, por exemplo, no Executivo o presidente Fernando Henrique Cardoso, e no Legislativo o deputado federal Roberto Campos, até os mais despreparados e voltados para ações pouco honestas.
Como infelizmente a segunda categoria costuma ser mais numerosa, volto à sugestão do curso. Afinal, política é uma profissão como outra qualquer, permitindo, inclusive, progressão na carreira e um bom salário, mas diferentemente de outras profissões não exige nenhuma qualificação do indivíduo, nem o obriga a ser portador de um certificado ou diploma que indique algum grau de conhecimento.
Em parte, por conta do despreparo geral da sociedade que se reflete na política, nesta esfera se desenvolve a arte da improvisação por excelência, sendo que o resultado que disso decorre não é exatamente o mesmo que nasce do improviso do homem que conserta canos ou guarda-chuvas sem entender nada sobre o assunto.
A grave questão que advém do despreparo dos políticos se prende ao fato de que a política é vital para a vida de cada pessoa. Isso porque tomadores de decisão, ou seja, políticos, estão decidindo a todo momento sobre o preço dos artigos, o valor do dinheiro, o custo do crédito, a qualidade da saúde, a perspectiva de emprego, o teor da educação, etc., etc. Ora, decisões tomadas na base do improviso, do interesse próprio, ou de olho nos votos da próxima eleição podem ter consequências desastrosas, que às vezes penalizam gerações.
Naturalmente, o preparo da classe política moderna passaria longe do ideal que Platão descreveu em a ‘‘República’’. Para este, o ofício mais elevado seria o dos governantes, os guardiães perfeitos (phúlakes, pantelêis ou téleoi phúlakes), criaturas quase divinas que reuniriam ao valor militar a excelência da filosofia. A formação dos guardiães perfeitos ou filósofos-reis, que se completaria aos cinquenta anos de idade, incluiria profundos estudos de matemática, astronomia e harmonia, que preparariam para o conhecimento mais elevado da dialética cujo objetivo era propiciar a idéia do Bem. Só assim os filósofos-reis seriam capazes de ‘‘volver o olho da alma (psukhês ómma) para o Ser que tudo ilumina, contemplar a essência do Bem’’ e conduzir os indivíduos sob seu governo para a Luz.
Platão concebeu uma utopia, ou sonhou acordado inatingíveis sonhos de perfeição humana. Os teleoi phúlakes jamais existiram ou existirão. E mesmo que um ser humano porventura tivesse alguma semelhança com os guardiães perfeitos, dificilmente esse tipo se aclimataria no Brasil onde, conforme um deputado do século passado de nome Tavares Bastos, ‘‘política sempre foi mercância de grosso trato’’.
Não, nem de longe é necessário que se ministre geometria e dialética aos nossos políticos. Basta que se lhes ensine noções suficientes para que eles consigam alimentar suas falas com idéias mais corretas e consistentes, e um pouco de português para que nos discursos não se escutem coisas como ‘‘menas’’, ‘‘atrântico’’, ‘‘Espírito das Lei’’.
Afinal, como representantes do povo, nossos tomadores de decisões deveriam dar o exemplo. E como dar o exemplo se a maioria deles nem sequer sabe o que significa partido político, parlamentarismo, presidencialismo, revolução, democracia, ditadura, totalitarismo, socialismo, social-democracia, capitalismo, liberalismo, neoliberalismo, globalização etc.
O desconhecimento em termos conceituais leva por sua vez à ignorância do funcionamento dos sistemas políticos, e a uma confusão ideológica que lembra a letra dos enredos de escola de samba. Neste contexto, prevalecem os modismos acoplados ao ‘‘politicamente correto’’. Assim, se não é chic ser de direita, e ser comunista já caiu em desuso, o jeito é se autoclassificar de centro-esquerda. É mais elegante e pode agradar a todos, apesar de ter o mesmo significado ideológico de centroavante. Enquanto isto, outros se agarram a um estranho tipo de alucinação, e se sentem sustentando os escombros do Muro de Berlim que já caiu faz tempo, virando souvenir em forma de caquinhos para a alegria de alemães e povos de outras nacionalidades. Já alguns cultores, pouquíssimos é verdade, do totalitarismo stalinista que exterminou 70 milhões de pessoas confundem neoliberalismo, no qual a liberdade é um dos elementos essenciais, com regime autoritário. Também entrou em moda criticar a ditadura militar, apesar de muitos dos atuais críticos do governo militar, iniciado em 64, o terem ardorosamente defendido na época. Diante de tudo isso fica a dúvida: ignorância ou má-fé? Em todo caso, seria recomendável a existência de um curso para políticos sem, é claro, as exigências platônicas.

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