Nós e o Afeganistão
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2001
Gaudêncio Torquato 
Não há termo de comparação: o Brasil é um dos mais belos países tropicais, possui um dos maiores litorais do mundo e abriga um povo ordeiro e acolhedor. Tem Carnaval, futebol e samba para alegrar o povo. O Afeganistão, pelo que se vê na televisão, é um dos mais feios países do mundo, com uma das maiores cadeias de montanhas inóspitas do planeta, cheio de tribos guerreiras, e, há 23 anos, vive da guerra e na guerra. Tem burcas que cegam e ofendem as mulheres e Osama bin Laden, que ofende a humanidade. Aqui, os olhos contemplam a modernidade, lá, a barbárie dos tempos de Átila, o huno. Será que é isso mesmo?
Apuremos a visão. As estatísticas estão mostrando que 40 mil brasileiros perdem a vida, por ano, vitimados pela violência. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas revela que, no passado, o Brasil gastou R$ 37 bilhões, metade do produto interno do Chile, para se proteger da violência. Deixa de arrecadar, em função da insegurança, cerca de U$ 10 bilhões anuais, por não receber os 10 milhões de turistas que têm manifesto interesse em escolher o País como rota. Soma-se a isso o rombo da Previdência, assolada com os tiros assassinos, que aleijam milhares de brasileiros, devastando os recursos dos hospitais, multiplicando pensões de viúvas, jogando no poço profundo do custo Brasil mais de R$ 80 bilhões, dinheiro que poderia ser investido em escolas, maternidades, saneamento básico (apenas cerca de 10% dos esgotos das cidades brasileiras recebem tratamento sanitário), transportes e energia.
Quase todos os dias, casos de sequestros infestam o noticiário. Na região de Campinas, a média é de 50 vítimas por mês. Os relatos tratam de amigos e familiares assaltados como se fosse algo corriqueiro. São tão banais que não comovem nem os mais sensíveis. A morte e o choro de familiares estampados nos funerais provocam nas pessoas apenas um ligeiro balbuciar, depois das três batidinhas na madeira e o cruz-credo: ''ainda bem que não foi comigo''. Mas nem o cruz-credo vale mais como passaporte para a imunidade. Segurança no Afeganistão é coisa igual a zero. Mas o que dizer da segurança, dentro da sede da Polícia Federal em Brasília, que deveria encarnar o conceito de proteção máxima? Não foi lá que a cantora mexicana Gloria Trevi engravidou? A situação é tão invertida e absurda que até o filho do sequestrador do japonezinho assassinado Ives Ota foi sequestrado.
Os brasileiros, é verdade, não sofrem a censura dos afegãos. Não apenas têm direito a enxergar o rosto das mulheres, como conseguem vê-las nuas ou quase, até em programas considerados ''nobres'' da televisão. Um farto banquete diário de intimidades expostas, tramas e artimanhas, enganos e traições, linguagens abertas e chulas movimentam o sossego dos lares, onde avós, pais, mães e filhos se deleitam (?) com um ''certo clima de liberdade'' (ou libertinagem), movido a marketing, e que funciona como válvula de escape das angústias das metrópoles e do ócio preguiçoso da imensidão do interior.
Não há limites para a cultura de devassidão que se propaga no País pela esteira de programas escatológicos, dramalhões canhestros, novelas melosas, enredos estapafúrdios e efeitos apelativos, e, mais recentemente, estórias caricatas da vida privada. E nem se pode culpar o povo por querer mirar seu estilo de vida no espelho brilhoso dos olimpianos da cultura de massa, ídolos populares de uma Pátria que, há muito, perdeu seus heróis e, a cada dia, esgarça os ideais de grandeza. A expansão dos espaços da licenciosidade é nada mais nada menos fruto de uma cultura política e institucional, que se degrada com os escândalos e calamidades envolvendo os representantes do povo, a corrupção nas administrações, a incúria dos homens públicos, a carência de propostas sólidas e de efeito duradouro, o patrimonialismo que rege as relações políticas e a própria tensão entre os poderes do Estado. A degradação da vida não é, como se pode concluir, exclusividade do Afeganistão.
Há quem veja entre o Brasil e o Afeganistão a mesma diferença contida nessa historinha narrada por Montesquieu, o famoso autor de ''O espírito das leis'': ''Um turco se encontra com um canibal. 'Sois muito cruéis', disse o maometano. 'Comeis os cativos que fazeis na guerra.' O canibal replicou: 'e o que fazei dos vossos?' 'Ah, nós os matamos, mas, depois que estão mortos, não os comemos'''. E arremata o filósofo, do alto de sua moderação: ''não há povo que não tenha sua crueldade particular''.
GAUDÊNCIO TORQUATO é jornalista, professor titular da USP e consultor político
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