Nos caminhos do Paraná-Oeste - Emília Belinati
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de maio de 1999
Emília Belinati 
As águas mansas do Lago de Itaipu vão fazendo seus contornos, vencendo linhas imaginárias de fronteiras. Quem passa por aqui não consegue esquecer o brilho do sol batendo nas águas, a qualquer hora do dia. Quem mora por aqui ainda lembra da outra paisagem, a que desapareceu sob o lago, com imagens de casas, estradas, pequenas cidades e um patrimônio da humanidade, as Sete Quedas. Estamos em pleno Oeste do Paraná, exatamente na região que teve sua geografia transformada para que o País recebesse a energia de Itaipu.
A primeira cidade que visitamos, Céu Azul, faz justiça ao nome. O prefeito Rogério Pasquetti nos recebe com alegria, rodeado de gente, e aponta para a praça, onde uma placa imensa contém todos os números da administração. Isso é transparência de verdade, Dona Emília, diz o prefeito. E vai contando que, quando assumiu o cargo, a prefeitura não tinha interruptores de energia instalados nas salas. O guarda chegava, acendia as luzes e ia até o final do expediente, com tudo aceso. Agora, quem sai da sala apaga a luz, o que significa uma economia de R$ 4 mil por mês. Agradeço a alegria da recepção e agradeço, de coração, o carinho e os cuidados com que o pessoal daqui tratou meu marido, Antonio Belinati, quando sofreu um grave acidente na estrada, próximo da cidade, há cinco anos. E apago a luz antes de deixar o gabinete do prefeito.
Ramilândia nos espera, com sua história tão recente de município novo, e uma prefeitura brilhando de tão limpa. Lá estão as bandeiras vermelhas dos sem-terra que querem conversar. São 500 famílias que já estão na Fazenda Banhadão há um ano, com a permissão do proprietário e cultivam a terra com o apoio da prefeitura. Esperam que o Incra apresse as desapropriações.
O prefeito Domingos Braganholi nos leva para conhecer um centro comunitário onde se abrigam 100 crianças, entre elas o John Lennon de Lima - que canta músicas de Leonardo e do Padre Marcelo e nem sabe quem foram os Beatles. Marley da Rosa, responsável pela alimentação e educação de 100 crianças, desculpa-se pela simplicidade das instalações do centro comunitário, como se falasse da sala de visitas de sua casa. E nós perguntamos: Que coração grande é esse que abriga tanta gente e ainda se desculpa porque não está fazendo mais?
Mais 15 minutos de viagem e chegamos a Matelândia, onde o prefeito Onir Braghini nos leva a conhecer a obra do século, o frigorífico da Cotrefal. Esse investimento de R$ 41 milhões - para abate de 240 mil frangos/dia - viabilizou-se numa parceria entre a prefeitura, a Cooperativa e agentes financeiros e vai criar 700 empregos diretos. É o orgulho de Matelândia.
Se o prefeito puxa a gente de um lado para mostrar sues projetos, a primeira-dama, Tereza, puxa a gente de outro. Ela nos recebe de tênis e uniforme do Profam (Programa de Proteção e Promoção da Família), um pequeno paraíso que atende a dezenas de crianças e adolescentes. Ali, onde tudo é bonito, limpo, de cores claras, as crianças se alimentam, cultivam a horta e aprendem a viver. Quase 2 horas da tarde e no Profam servem uma sopa de capelletti, que de tão boa, cala subitamente a comitiva. Como agradecer por esse aconchego com que nos recebem?
Em Medianeira, a conversa pula para o ano 2005 e o prefeito Luiz Suzuki estabelece as bases do futuro num debate com empresários e as lideranças de todo o município, através do Fórum Permanente de Desenvolvimento de Medianeira. São 35 pessoas que lutam para fazer de Medianeira um pólo educacional e tecnológico baseado em princípios bem adequados aos nossos tempos. O futuro não pertence mais ao acaso. Ouse fazer, e o poder será dado, explica o prefeito Suzuki, apoiado por gente que acredita em trabalho, em planejamento, em esforço coletivo. Por isso, meninos de rua são orientados e formados para que, com 17 anos, possam entrar no mercado de trabalho.
Se estivesse que explicar Medianeira através de uma imagem, lembraria a de uma filha aplicada, que estuda, planeja sua vida e se prepara para enfrentar o mundo lá fora. Sem nos causar preocupações.
E eis São Miguel do Iguaçu, a última passagem nessa jornada. E a cidade nos surpreende com um projeto admirável. Aqui, a prefeitura ocupa os grandes espaços no Parque de Exposições para atender a crianças e adultos impedidos, por alguma deficiência, de se integrarem à vida cotidiana da cidade. O prefeito Armando Polita conta com ginásio de esportes e centro de artesanato, utilizando uma área nobre, sem custos de construção. Um bom exemplo para um Paraná que teve na década de 70 o boom dos parques de exposição.
A região Oeste nos oferece experiências extraordinárias. Foz do Iguaçu, por sua posição geográfica, convive com três fronteiras, quatro moedas (real, dólar, peso e guarani) e três línguas (português, inglês e espanhol) e tem um prefeito, Harry Daijó, descendente de japoneses. Santa Terezinha de Itaipu, bem ao lado de Foz, como fala o povo, gasta R$ 160 mil por mês em saúde, porque atende a brasiguaios e paraguaios em busca de tratamento médico.
São prefeituras que enfrentam problemas como todas as outras, mas a situação é mais tranquila aqui porque Itaipu Binacional paga, todos os meses, os royalties pela energia gerada. A prefeita de Santa Terezinha, Ana Maria Carlessi, que nos recebeu com 51 primeiras-damas para avaliar o trabalho social em toda a região, conta que a Bayer Alimentos está instalando no município uma fábrica de refrigerantes. E a mulher do executivo da empresa, Patrícia Rivero, nutricionista, vai passar os próximos seis meses, período da construção da fábrica, ensinando mulheres e jovens a fabricar embutidos, no que é especialista. Mais empregos, mais produção para o município. E a gente aprendendo lições inesquecíveis de esforço pessoal e coletivo para tornar esse mundo melhor.
- EMÍLIA BELINATI é vice-governadora do Paraná


