Nos caminhos do Paraná - Norte Pioneiro - Emília Belinati
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de abril de 1999
Emília Belinati 
O padre Henrique Ultykanski, obviamente polonês, conta que, há muitos anos, encontrava sempre o bispo Karol Woitilla em Cracóvia. Agora, com o bispo feito papa em Roma e ele, feito pároco de Joaquim Távora, diz que os encontros ficaram um pouco mais difíceis.
O padre Henrique usa sandálias de couro no calor do Norte Pioneiro e recebe a nossa comitiva com alegria. Ele, o prefeito, os vereadores e lideranças comunitárias parecem ansiosos para discutir a vida do município. No gabinete da prefeitura, servem suco de laranja gelado, enquanto detalham a questão da segurança. Aqui, nesse canto do Paraná, os municípios estão vulneráveis às quadrilhas de assaltantes paulistas, equipadas e protegidas pela área de fronteira com São Paulo. Em Joaquim Távora, cansada de ser vítima, a população uniu-se e viabilizou recursos para construir um anexo à cadeia local. As obras começam imediatamente.
Mas não é só a segurança que preocupa essa região. Os municípios investiram em infra-estrutura - escolas, energia, saneamento básico - mas estão ficando ao largo do processo de industrialização. E por dois motivos: os investimentos em telecomunicações ainda não chegaram aqui e as estradas estão em péssimas condições, já que ficaram de fora do Anel de Integração, fio condutor do desenvolvimento do nosso Estado.
Que indústria vai se instalar aqui se não pode contar com telefone, fax ou boas estradas ?, pergunta o prefeito da Joaquim Távora, Tarcísio Messias dos Santos, com índices de primeiro mundo em saneamento básico e que mal consegue linha para falar com Londrina, logo ali. Para não perder a carona do processo de industrialização, associações de prefeituras e de câmaras já se debruçam em projetos para fazer das estradas um anexo do Anel de Integração e para convencer as concessionárias de telefone a erguer torres de transmissão na região. A cidade que constrói cadeia unida, permanece unida na busca de soluções.
Em Wenceslau Brás, a prefeita Carolina Batistão fala e anda como um serelepe, nada lhe escapa. Volta e meia, é vista nos corredores do Palácio Iguaçu, roubando a atenção nas solenidades para os projetos que carrega debaixo do braço. Quando chego ao gabinete da prefeita, lá estão eles, os projetos que preenchem três folhas de papel almaço e que ela promete não ler. Quer só entregar para a vice-governadora. Acaba lendo quase tudo e ainda encontra tempo para falar sobre uma proposta inédita de combate à erosão com pneus velhos que está em andamento no município e chama a atenção da imprensa nacional. Quando comenta as dificuldades para manter o transporte escolar, é certeira. Como é que o ônibus vai chegar lá na Farturinha e só pegar os alunos da primeira à quarta série? E os outros? Isso é discriminação.
De novo na estrada, daí a pouco a gente encontra as ladeiras da cidade de Siqueira Campos. O movimento é grande no centro, lembrando os povoados que cresceram rapidamente no Norte do Paraná, por conta da leva de migrantes que chegavam a todo instante. Nos dias de hoje, é a cada agosto que a cidade recebe os visitantes. Vem gente de todo lado participar da Procissão do Bom Jesus da Cana Verde, que dizem ser o protetor dos bóia-frias. O prefeito Dirceu Rodrigues concorda comigo que bom mesmo seria se a agroindústria ganhasse força por aqui, para que a terra desse outros frutos e gerasse empregos e divisas.
Em Quatigá, cidade que leva o nome de uma árvore imensa, que já não existe mais por aqui, o prefeito Jorge Ramalho está preocupado com o ICMS de 17% sobre o alho, produto que o povo compra no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e até na Argentina. O alho vem in natura e, caprichosas, as mulheres e crianças limpam, trançam e encaixotam o produto como ninguém mais no Estado, o que transformou o município no maior comprador do Paraná. O imposto, mais alto do que nos outros Estados, está ameaçando o emprego de 350 pessoas. Sem contar que Quatigá também fica fora do Anel de Integração, o que prejudica a industrialização. Estradas e agroindústria voltam à tona.
Santo Antônio da Platina nos recebe limpa e bonita, com um casal de sanfoneiros logo na entrada da prefeitura para saudar a comitiva. O prefeito Flávio Maiorski realiza mutirões nos bairros nos finais de semana para limpar ruas, bueiros e terrenos baldios. Durante a conversa, as lideranças se unem para fazer mais um apelo em favor da instalação do parque industrial, peça fundamental no plano da cidade para evitar que jovens e adultos, sem perspectivas, acabem por atravessar a fronteira em direção a São Paulo. Estamos com muitas viúvas de maridos vivos, diz o prefeito. Homens vão em busca de trabalho e acabam não voltando.
Fim do dia, fim das visitas. Da estrada, a gente percebe luzes nos campos e alguém explica: Lá estão os dólares que vão ajudar na balança. São colheitadeiras, trabalhando dia e noite, para colher a safra da soja. Assim é o Paraná, sempre trabalhando. Sempre querendo mais trabalho.


