Nos caminhos do Paraná - indústria
Emília BelinatiNo lado direito da estrada que passa pelos morros da região e leva a Piên, a fábrica da Tafisa surge, de repente, surpreendendo pelo tamanho, pelas luzes e pelo barulho, que lembra um jato sobrevoando a cidade. Além dos projetos e dos números que apresentam o Paraná como o Estado que registrou, nesse ano, o maior crescimento industrial do Brasil, a fábrica está ali, uma realidade sem meios termos, sem contestação. E essa realidade se apresenta com muito mais vigor quando descobrimos seus efeitos na vida de cada paranaense.
Em Piên, as luzes da Tafisa, um complexo industrial que produz conglomerados para indústria de móveis, rivalizam com a iluminação da cidade inteira. E nas conversas e discursos que vamos ouvir, em seguida, o nome da indústria faz parte do vocabulário tanto quanto o nome do município. Ninguém, aqui, foi o mesmo depois que o barulho dos motores invadiu o silêncio dessas montanhas.
Observar essa gente, envolvida numa mudança tão fundamental para suas vidas, é um aprendizado. A pequena Piên, no Sul do Paraná, com 10 mil habitantes, debate-se em duas situações: de um lado recebeu um investimento de R$ 250 milhões, com 260 novos empregos diretos e a previsão de geração de ICMS que vai trazer um desenvolvimento jamais sonhado pelos seus habitantes. De outro, a que se lidar com as demandas que essa nova habitante está gerando, desde infra-estrutura de estradas, energia e água até escola e formação profissional.
O grande desafio do Poder Público – que só passará a beneficiário dos novos impostos dentro de quatro anos – é proporcionar o atendimento às exigências no mesmo ritmo da construção da fábrica: ‘‘Sofremos, hoje, uma dor muito grande, mas uma dor saudável’’, diz o prefeito Orlando Dranka enquanto exemplifica a situação com um pedido: ele já tem a garantia da Tafisa para manter novas salas de aula mas precisa de recursos para a construção do prédio.
A presença da fábrica, por si só, incentiva novos projetos, estimula a cidade a pensar sobre seu futuro e faz sonhar. Mas preocupa também. O prefeito alerta para a necessidade de um novo plano diretor para a área urbana, que corre o risco de se descaracterizar diante do crescimento desordenado.
São situações como essas que nos levam a pensar sobre as transformações que o Paraná está vivendo com a industrialização. Cada prefeito, cada liderança desse Estado reivindica a instalação de uma fábrica e o governo responde na medida em que direciona os investimentos para o interior.
Mas dois aspectos devem ser analisados: a instalação de uma fábrica num determinado município não influencia a vida só daquela comunidade, mas muda a região e vai atingir todo o Estado, como numa espiral que se estende por nosso mapa, gerando riquezas e impostos e consequentemente, melhorando a vida de todos.
Da mesma forma, a instalação de uma fábrica num município ou região demanda serviços e infra-estrutura que às vezes o Poder Público, carente de recursos, não consegue corresponder. E aí se corre o risco do crescimento desordenado, sem a interferência do planejamento, comprometendo muitas vezes, o meio ambiente, o tráfego nas áreas urbanas e a qualidade de vida das gerações futuras.
As cidades como Piên, Agudos do Sul, Rio Negro, Campo do Tenente e Quitandinha, que visitei na última semana, estão inseridas nesse contexto por que passa o Paraná. Piên se prepara para receber novas indústrias, atraídas pela Tafisa. Agudos do Sul procura formar uma cooperativa para transformar a batata-salsa aqui mesmo e agregar valor à produção que hoje segue in natura para compor sopas industrializadas em São Paulo. Campo do Tenente planeja a instalação da Placas Paraná. Rio Negro se une com cientistas e pesquisadores para estudar uma grande riqueza no subsolo, inédita no mundo, que mudará a face da região. E o prefeito Ary Siqueira brigou tanto que conseguiu que a Souza Cruz, instalada no município há 40 anos, fizesse novos investimentos para aumentar o número de empregos. Em Quitandinha, o prefeito Zé Quirera ri satisfeito com os investimentos públicos feitos no município e já sente os reflexos da industrialização na Região Metropolitana de Curitiba.
Quando a gente pára e conversa com esses paranaenses, sente na alma o desafio que se impõe ao governo. Ou como dizia o mestre Guimarães: ‘‘Uma coisa é por idéias arranjadas, outra é lidar com país de pessoas, de carne e sangue, de mil e tantas misérias. Tanta gente – dá susto de saber e nenhum se sossega, todos nascendo, crescendo, se casando, querendo colocação de emprego, comida, saúde, riqueza, ser importante, querendo chuva e negócios bons...’’
O desafio que nós, os que exercemos a atividade política, temos que enfrentar todos os dias, é responder, dar esperança para esse País, de carne e sangue, de mil e tantas misérias. Ter esperança não é luxo, é necessidade.
- EMÍLIA BELINATI é vice-governadora do Estado do Paraná

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