Nordeste x Mercosul
Miguel IgnatiosDuas questões, de repente, ganharam espaço inesperado na mídia. O simples fato de serem levadas a sério preocupa. A primeira propõe um falso dilema: é mais fácil o País corrigir as disparidades regionais com o Mercosul ou sem ele? A segunda refere-se à criação de (mais) um imposto contra a miséria. Ambas chegam a ser kafkianas tal a falta de bom senso que contêm.
Antes de abordá-las, todavia, é preciso lembrar que elas surgiram no bojo de uma reforma ministerial em que o PFL obteve autonomia para tomar iniciativas. Mas a necessidade de mostrar força, visando às eleições de 2002, acabou por transformar uma coexistência pacífica entre os dois principais partidos aliados (PSDB e PFL) em confronto aberto. Para pôr fim a essa queda de braço, com a qual o Brasil só tem a perder, será preciso o presidente FHC rever, com urgência e clareza, a agenda e o cronograma da sucessão.
Apesar de o tucano Tasso Jereissati, governador do Ceará, ter dito, na ocasião em que ainda se discutia a concessão de incentivos fiscais para a instalação da Ford na Bahia, que se a opção fosse escolher entre o Nordeste e a Argentina ele não hesitaria em apoiar a sua região, o bom senso mostra que a ampliação do mercado interno pela integração de vários países em blocos comerciais é a melhor oportunidade de se corrigir rapidamente os desníveis regionais.
Portanto, a opção sensata não é Argentina ou Nordeste. Mas, sim, corrigir, como vem sendo tentado desde a criação da Sudene, as disparidades regionais, no contexto do desenvolvimento da economia brasileira (eu diria que em ritmo de progressão aritmética), ou, então, ampliar a escala, acrescentando-se os mercados de outros países, como vem sendo feito desde 1991, com a implantação do Mercosul.
Desde então, a transferência de indústrias das regiões Sudeste e Sul para o Nordeste vem-se acelerando rapidamente. Talvez não tenha alcançado ainda o ritmo de progressão geométrica em relação à média do crescimento brasileiro, mas isso deverá ocorrer tão logo as indústrias dos demais parceiros do Mercosul também comecem a se instalar na região nordestina.
Quanto à proposta de se criar mais um imposto (melhor seria dizer confisco sobre os rendimentos) para diminuir a pobreza do País, o mínimo que se pode dizer a respeito é que tal idéia é ultrapassada, inoportuna, paternalista e com óbvias finalidades eleitorais. A pobreza do País vai diminuir apenas quando o setor produtivo da economia puder se desenvolver livre e plenamente, sem as amarras de uma carga tributária que, após as medidas do ajuste fiscal acertado com o FMI, já beira os 31% do PIB.
Os bolsões de miséria, hoje, infelizmente, já não são mais exclusivos das regiões rurais. Eles também estão nas metrópoles à vista de todos. Mas, com certeza, não vão desaparecer se, porventura, num passe de mágica, os trabalhadores que ganham acima de R$ 2 mil por mês tiverem de bancar mais um desconto, nos moldes da CPMF.
A propósito do tema da pobreza, conta-se que, certa vez, um aluno do então professor da Universidade de São Paulo (USP), Caio Prado Júnior, autor de ‘‘História Econômica do Brasil’’, dentre outras obras, sabendo de sua simpatia pelo socialismo e que ele pertencia a uma das famílias paulistas mais ricas, perguntou-lhe por que não dividia suas propriedades com os trabalhadores. Calmamente, o ilustre historiador respondeu-lhe que se fizesse algo semelhante, os proletários não deixariam de ser pobres e ele perderia todos os seus bens.
A lição a se tirar da História é que não se acaba com a pobreza e a miséria por meio de doações. Só é possível erradicá-las pela criação e simultânea distribuição da riqueza.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e de Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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