São Paulo A esquerda do PT ficou irritada com algumas das escolhas do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva e não engoliu o nome de Henrique Meirelles para o Banco Central. As declarações dele sobre o futuro da instituição causaram arrepios, a tal ponto que os deputados federais identificados com os grupos mais à esquerda do partido começam a rever sua estratégia de ação. Devem começar o ano atacando Meirelles e cobrando de Lula demonstrações de que não seguirá à risca a cartilha neoliberal.
Em outras palavras, começam do ponto onde parou a senadora Heloísa Helena, de Alagoas, quando foi enquadrada pela direção do partido e impedida de votar contra a escolha do ex-presidente do BankBoston. ''É preciso deixar claro que a Heloísa Helena está correta e que não é uma voz isolada'', diz o deputado paraense João Babá, um dos integrantes do grupo de 25 parlamentares que tendem mais para a esquerda.
Para o recém-eleito deputado Lindbergh Farias, do Rio, o Banco Central passou para o centro da discussão no momento em que Meirelles tocou na questão da autonomia da instituição, elogiou a política de Armínio Fraga (atual presidente do BC), falou em mandatos fixos para os diretores e anunciou que manteria a atual equipe de assessores. ''Isso significa a manutenção daquilo contra o qual tanto brigamos'', avalia Lindbergh.
Na opinião do deputado Ivan Valente, de São Paulo, se a proposta de autonomia fosse tão boa quanto se diz, teria sido aprovada pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, com a chancela do ministro da Fazenda, Pedro Malan.
A esquerda do PT pretende cobrar de Lula demonstrações de que não seguirá os mesmos passos do atual governo na condução da política econômica. Uma delas, segundo Lindbergh, seria romper com a escalada da taxa de juros, usada para controlar a inflação. Outra, renegociar as taxas de superávit primário acertadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Na opinião de parlamentares descontentes, certas bandeiras históricas do partido foram temporariamente dobradas e guardadas. Reconhecem que Lula elegeu-se com um programa amplamente negociado com a sociedade, sabem que são uma minoria e que no momento não existem condições para se pensar em mandar o FMI passear.
É um recuo estratégico, que pode trazer-lhes aliados temporários. Foi comemorado por parlamentares da esquerda petista num artigo do economista Paulo Nogueira Batista Jr., publicado na semana passada, no qual ele afirma que, se de fato for concedida autonomia ao BC e os seus diretores passarem a ter mandato fixo, o País vai estar diante do caso insólito de um presidente que começa a renunciar antes de tomar posse.
Batista não é filiado ao PT, mas seu nome é respeitado por petistas principalmente os que não são da esquerda. Na opinião de Lindbergh, isso mostra como as decisões recentes de Lula provocam inquietações em todas as alas do partido. ''Nesse ritmo, até gente da articulação pode se juntar à ala esquerda'', diz ele, referindo-se do ao bloco moderado que hoje domina o PT e que é responsável pela política de alianças que levou Lula ao poder.
A escolha de Meirelles não foi a única criticada por parlamentares da esquerda. A deputada catarinense Luci Choinacki, vinculada à Comissão Pastoral da Terra e ao Movimento dos Sem-Terra, não gostou da indicação do fazendeiro e empresário Roberto Rodrigues para o Ministério da Agricultura. ''Isso descontentou todo o campo popular do partido, que está envolvido com a defesa da agricultura familiar'', diz ela.

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