Noivos do voto
A política é o monstro que anestesia suas vítimas antes de devorá-las. A abundância de candidatos, para prefeito e vereador, em nada contribui para a qualidade e sossego do processo eleitoral. A farra, também patrocinada pelos partidos políticos, está caminhando para o lado errado da necessidade. Na busca do poder e do salário, justifica-se tudo para encantar a noiva: o eleitor.
Pela carinha lambida deles na televisão, se eleitos, não teremos mais problemas com Educação, Saúde e Segurança. Tantas promessas e tanta poeira. Não informam, porque não sabem, como vão conseguir os recursos, sem sangrar o contribuinte. Os noivos do voto, ansiosos pelo conúbio com o poder, estão fazendo as mais absurdas demonstrações de imediatismo, corporativismo e superficialismo. Mas, são brasileiros; e merecem, até prova em contrário, nossa paciência. Envio algumas convicções e sugestões, apimentadas e lancinantes, para exercício eleitoral da maioria destes candidatos; para uso amplo, geral e ilimitado, na constrangedora hora de pedir o voto ao cidadão, falando o seguinte:
Em todas as repartições públicas do País, vamos colocar placas de bronze com estas palavras: Consciência Honestidade Responsabilidade. Não se poderá começar nenhuma reunião, em território nacional, sem antes ler e entender estas palavras. Prometemos, em todos os dias de nosso mandato, uma luta sem trégua contra todas as formas de corrupção. Este é o nosso maior inimigo nós mesmos. Entendemos, de forma definitiva, que cargo público (prefeito, vereador, deputado) não deve ser remunerado com salários que afrontem os trabalhadores mais humildes da comunidade. Nós valemos tanto quanto eles.
Vamos exigir leitura e mais leitura de todos os cidadãos, na busca de melhor pensamento crítico. Livros são os melhores adubos para o cultivo da cidadania. Mostraremos ao povo que não é com chuteiras, carrões de corrida e nem com raquetes que se contrói uma nação. E nem com dinheiro de jogatina.
Não permitiremos, em nenhuma hipótese, propaganda de cigarros e bebidas alcoólicas para contaminar nossos jovens, desviando-os para os caminhos do vício. Álcool e nicotina tornam a vida muito cara para toda a sociedade brasileira. Não permitiremos que nenhum político tenha imunidade parlamentar. Na menor comprovação de fraude ou crime, perde-se o mandato e os bens. E nunca mais poderá pensar em disputar cargo público.
Todos os eleitos pelo voto popular, só poderão receber assistência médica nos serviços públicos de saúde, incluindo o presidente da República. Não aceitaremos nenhuma exploração das classes humildes pelas igrejas mercenárias. Igreja não é empresa e nem partido político. Deus não quer saber de lavagem cerebral (e do bolso) para ninguém. Daremos o melhor de nossa capacidade para colocar todos os lalaus brasileiros na cadeia, prestando importantes serviços à comunidade: lavando banheiros públicos, varrendo ruas, distribuindo sopas comunitárias etc.
Mostraremos a inutilidade de conceder títulos de cidadãos honorários e trocar nomes de ruas, quando temos tantas coisas sérias para fazer. Com toda certeza, não deixaremos mais a televisão exibir cenas de violência em nenhum horário. Com tantas opções no mundo do entretenimento, um Conselho de Respeito aos Lares saberá fazer a melhor escolha contra a podridão e baixarias na telinha.
De parte do nosso salário, e de nosso suor, vamos alocar recursos para instituir prêmios para pesquisadores e cientistas brasileiros. Entendemos que a ciência brasileira, em parceria com os centros internacionais, poderá fazer muito mais por todos nós, do que os colarinhos brancos de gabinetes.
Votaremos pela tolerância zero para com todos os bandidos e traficantes de drogas. Sabendo das regras do jogo, quem colocar o pezinho fora, ou a mãozinha, poderá ser agraciado com as mais temíveis penas, jamais vistas por aqui. Democracia sem autoridade é o mais cruel inimigo do povo. Pior do que ditadura.
Bom, não posso continuar mais porque algum candidato está tocando a campainha de minha casa; e vou lá atendê-lo.
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia





