NOITE DE FESTA O mito Niemeyer e o NovoMuseu
PUBLICAÇÃO
domingo, 24 de novembro de 2002
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Curitiba Fernando Henrique desceu a rampa do NovoMuseu amparando pelo braço o maior arquiteto vivo brasileiro, um dos maiores do mundo, o mito Oscar Niemeyer. Uma imagem que marcou o final da tarde do dia 22 de novembro de 2002 para sempre. A festa de inauguração do NovoMuseu foi marcada por elitismo, elegância, alguns deslizes e muita poesia. E já pode ser vista como o encerramento do governo Lerner.
E o que pode ter importância diante da opulência do olho que Niemeyer construiu? Quase nada. As roupas, o cerimonial, o comportamento elitista de não deixar a imprensa entrevistar o presidente, tudo fica sem sentido perto da cena de ver Niemeyer sendo amparado por Fernando Henrique. Pequeno perto da alteração cultural que Curitiba irá viver com o funcionamento do NovoMuseu. Quantas crianças irão entender o verdadeiro sentido da obra de Niemeyer a partir de agora?
A inauguração mostrou uma ala de arquitetos que pouco sai de casa, mas que foi até lá conferir tanto a obra quanto o mito. As mulheres estavam bem. Vestidas apropriadamente, talvez por terem sido pegas de surpresa pelo frio intenso daquele final de tarde, talvez por terem consciência que a presença de Niemeyer pede cuidados com o equilíbrio estético. Quase ninguém escorregou na produção. À exceção de algumas damas do primeiro escalão que erraram feio e de outras que tentaram impressionar pelo exótico, a elegância correu solta.
Tudo isso também ficou reduzido a nada perto da visão de Niemeyer, ele de novo, sempre ele, na brilhante solenidade, de pé, durante toda a cerimônia. Impressionante a postura dele, sem se inquietar, incólume, ignorando uma cadeira colocada atrás de onde estava parado. Depois dele quem ganhou a vez foi o presidente. Fernando Henrique falou ao público e às autoridades com um ar de libélula. Sim, o governante está em processo de transformação. Metamorfose pura. Voltando a ser sociólogo. Delirou em alguns momentos. Muitos certamente não entenderam suas comparações entre Brasília e México e o NovoMuseu.
Fernando Henrique não parece mais preocupado em agradar o público com palavras populistas. O presidente quer voltar a divagar e a Curitiba novamente para poder se sentir perto do Palácio Alvorada. Não pelo poder (palavras dele) mas pela sensação que uma obra de Niemeyer provoca nele mesmo. No entendimento de muitos que apreciaram a inauguração, assim caminha a humanidade e é por esse caminho que a cultura do Paraná deve seguir daqui para frente. O NovoMuseu existe e uma série de mudanças arquitetônicas e sociais ao seu redor deve tomar corpo.


