A Pastoral da Criança foi merecidamente indicada para receber o Prêmio Nobel da Paz de 2001. O que temos feito para ajudar? Será que devemos nos preocupar com isso? O que nós, de Londrina, temos em especial com o assunto? A idéia partiu inicialmente do ministro da Saúde José Serra. Mais do que ninguém, ele sabe que as 145 mil voluntárias dessa ONG, entre líderes comunitárias e integrantes das equipes de apoio, acompanham cerca de 1,5 milhão de crianças e 76 mil mulheres grávidas, em 3.277 municípios.
E o ministro sabe também que a mortalidade infantil nas regiões onde a Pastoral atua está entre 12 e 18 mortes no primeiro ano de vida para cada mil nascidos vivos, cerca de metade da média nacional. Além disso, o índice de crianças desnutridas caiu para 7% enquanto a média no País é de 14% e que 81% das crianças de até 4 meses acompanhadas pelas voluntárias estão recebendo aleitamento materno. Sabe também que dentre as 1,061 milhão de famílias acompanhadas, não há nenhuma criança vivendo nas ruas. Isso tudo significa que, por ano, cerca de 5 mil crianças deixam de morrer no Brasil graças ao trabalho da Pastoral da Criança.
A metodologia da Pastoral está centrada na parceria entre governo e sociedade, tendo a família e a comunidade como os principais sujeitos sociais. A dinâmica é capacitar líderes comunitários para técnicas acessíveis de ações básicas de saúde, nutrição, educação e cidadania. Entre as ações, destacam-se: apoio integral a gestantes, incentivo ao aleitamento materno, vigilância nutricional, alimentação enriquecida com produtos naturais e de baixo custo, odontologia para bebês, prevenção da violência contra a criança no ambiente familiar e estímulo para a vacinação de rotina das crianças e gestantes.
O custo de todo esse trabalho está estimado pelo Ministério da Saúde, que contribui com 70% do orçamento da Pastoral (U$ 8,5 milhões em 2000), em cerca de R$ 1 por mês por criança acompanhada. Ou seja, os custos totais da Pastoral são os de um único hospital de porte médio, com cerca de 300 leitos como é o caso do nosso Hospital Universitário de Londrina.
Quanto às origens e desenvolvimento do trabalho da Pastoral, ocorreram algumas felizes coincidências que fez com que tudo começasse aqui no Norte do Paraná. Em 1982, em Genebra, houve uma conversa entre o cardeal arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns e o diretor executivo da Unicef, sobre os problemas enfrentados pelas crianças brasileiras. De volta ao Brasil, D. Paulo pediu a uma das suas irmãs, a médica Zilda Arns Neuman, pediatra e sanitarista, residente em Curitiba, que pensasse numa maneira da Igreja ajudar na luta contra a mortalidade infantil.
No ano seguinte, a CNBB confiou a tarefa de criação da Pastoral ao então arcebispo de Londrina, hoje cardeal de Salvador, D. Geraldo Majella Agnelo e em setembro do mesmo ano a entidade começou a atuar, tendo a Dra. Zilda à frente, no pequeno município de Florestópolis, com 14 mil habitantes e detentor do maior índice de mortalidade infantil do Paraná, com 127 mortes antes de 1 ano de idade por grupo de mil crianças nascidas vivas. Um ano mais tarde o índice cairia para 28 mortes por mil nascimentos!
Enfrentando com garra e determinação as incompreensões, a falta de recursos, as resistências de certos governantes e até mesmo de setores dos movimentos religiosos, a Dra. Zilda conseguiu que o trabalho se disseminasse inicialmente para Cambé, Londrina e para outros municípios do Paraná.
Nos anos seguintes, o trabalho da Pastoral espalhou-se pelos outros Estados e mais recentemente tem contribuído para o desenvolvimento de iniciativas semelhantes em vários países da América Latina e da África. Mas há muito ainda por ser feito. Em 17 anos de atuação, a Pastoral acumulou conhecimentos, força, e criou um método inovador e eficiente de ação social. A sua indicação para o Prêmio Nobel da Paz é um reconhecimento e ajuda na sua consolidação e crescimento. Mas será melhor ainda se a ela for eleita para receber o prêmio.
O governo tomou algumas iniciativas. Além de ter identificado que nos últimos anos a Fundação Nobel tem dado mais ênfase a pessoas ou instituições que procuram diminuir as várias formas de violência, diferentemente do que acontecia nos anos 50 e 60, em que a ênfase era aos que lutavam para evitar a guerra entre as nações, em outubro do ano passado, através de um decreto presidencial, o governo criou uma comissão nacional para a promoção da candidatura da Pastoral da Criança ao Prêmio Nobel. Essa comissão vem preparando subsídios para a publicação de um dossiê sobre os trabalhos desenvolvidos pela Pastoral, estabelecendo diálogo com instituições e líderes nacionais e internacionais na busca de manifestações de apoio e outras ações.
E nós, de Londrina e do Norte do Paraná, o que podemos/devemos fazer em relação a esse assunto? Será que é o caso de organizarmos um movimento de apoio à candidatura da Pastoral? Qual é a nossa capacidade de fazer diferença numa eleição tão importante e tão longíngua? O caminho não é fácil. Madre Tereza de Calcutá foi candidata durante vários anos antes de ser escolhida, e a organizaçao Médicos sem Fronteiras, ganhadora do Prêmio em 2000, fez campanha em Oslo durante dez anos antes de conseguir êxito.
Devemos ter clareza de que um prêmio como o Nobel garante maior reconhecimento mundial, o que facilita a obtenção de doações e financiamentos externos para novos projetos, além de vir acompanhado de cerca de U$ 1 milhão, que com certeza será muito bem utilizado nas ações da Pastoral.
O que Londrina pode fazer para ajudar a Pastoral da Criança a ganhar o Prêmio? Vamos discutir isso hoje, numa reunião a partir das 11 horas, no Hospital Universitário. Junte-se a nós!
- MARCIO ALMEIDA é vice-reitor da Universidade Estadual de Londrina

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