Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 22,1% da população brasileira sofre por endividamento financeiro crônico. Seduzidos pela facilidade de pagamento em prestações a perder de vista, consumidores acabam entrando em um labirinto de dívidas de onde fica cada vez mais difícil sair. Em entrevista à FOLHA, o consultor financeiro Cláudio Boriola classifica o consumidor brasileiro como imaturo, aponta a educação financeira nas escolas como alternativa para solucionar o problema, mas admite o desinteresse do governo em fazer esta medida dar certo.

O brasileiro sabe economizar?
De forma alguma. Ele é muito imaturo ainda, porque foi ensinado a gastar. Devido ao alto consumismo, a pessoa entre em um labirinto de dívidas e quando percebe já é tarde. Aí faz dívida nova para pagar dívidas antigas. São pequenas parcelas a longo prazo que embutem altas taxas de juros e o consumidor não percebe, deixa de adotar a regra dos quatro ''Ps'': planejar, pesquisar, pechinchar e pagar à vista. Antes do Plano Real, éramos ensinados a gastar muito rápido. O alto índice de inflação obrigava a pessoa a fazer isso, porque no dia seguinte o dinheiro não valia mais nada. Mas nós esquecemos de valorizar nosso dinheiro. Para ganhar é muito difícil, mas para gastar é muito rápido.

E como fazer para criar esta cultura financeira?
Tem que partir das escolas, da base da formação do homem. O professor de Geografia vai explicar as diferenças de um Estado para outro, porque um Estado é mais desenvolvido que o outro. O professor de História vai falar do surgimento do dinheiro até a época atual, e o professor de Matemática vai entrar na questão de administração do lar, como elaborar um planejamento doméstico familiar, como poupar para garantir o futuro. Não seria uma disciplina específica, mas a educação financeira inserida nas outras disciplinas.

Será que há interesse do governo em implantar essa educação financeira nas escolas?
Não tem interesse. Quanto maior a informação que você der aos brasileiros, menor vai ser o consumo. Vão ser consumidos produtos apenas de primeira necessidade. Além disso, se ensinar o povo mais pobre a controlar seu dinheiro e aumentar a qualidade de vida, diminui a quantidade de votos na próxima eleição.

As propagandas oferecendo produtos com parcelas baixas em várias prestações e juros altos atrapalham essa cultura?
O marketing agressivo é benéfico para o consumidor que planeja suas finanças, porque serve como uma fonte de pesquisa, não como atrativo de consumo somente. Por outro lado, algumas propagandas servem para estimular a ansiedade do consumidor. Mas se ele colocar aquelas regras em prática vai saber fugir desta situação.

Para quem administra um lar, por onde deve começar o planejamento financeiro?
Tem que colocar tudo na ponta do lápis. Quanto ganha, quanto gasta, quanto pode gastar e quanto pode poupar. Existem despesas fixas como aluguel, mas outras variáveis como luz e telefone em que é possível diminuir o consumo contribuindo para um melhor rendimento financeiro no fim do mês. Também é importante a conscientização da família. Não é transferir a responsabilidade, mas fazer com que eles contribuam para o bem-estar da saúde financeira familiar. Economizando, você pode fazer investimentos. É interessante reservar pelo menos 20% dos rendimentos e aplicar em poupança, fundo de renda fixa. Tem que fazer o dinheiro trabalhar para você, não ser escravo do dinheiro.

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