No tempo das cavernas - Arlete Salvador
No tempo das cavernas
Arlete Salvador
Sou daqueles que ainda se surpreendem com o avião. Cada vez que coloco o pé num deles fico pensando que isso não vai dar certo. Um bicho daquele tamanho e com aquele peso todo não pode voar, como fazem os passarinhos e as borboletas, tão delicados. Mas ele voa e eu sempre me digo que a capacidade criativa do homem e o seu poder de dominar a natureza não têm limites.
Também me assombro com as modernas tecnologias. As mensagens pela Internet que vão e voltam num segundo, atravessando oceanos e continentes, por exemplo, parecem coisas do outro mundo. As conversas por telefone celular e até a televisão, com a qual já nos acostumamos, são para mim algo como milagres indecifráveis. Como é que pode?
As modificações genéticas, feitas em laboratório, fascinam-me. O nascimento da ovelha Dolly ainda é um fato perturbador. Abre portas para uma série infinita de experimentos sobre alterações genéticas humanas. Para o bem ou para o mal. Seria perfeito, sem dúvida, que a ciência pudesse criar órgãos em laboratório para transplante. Vidas seriam salvas. Mas do mesmo princípio surge a possibilidade da criação de seres com padrões genéticos definidos pelo preconceito e pela exclusão.
Da mesma forma como esses avanços, também a ignorância da humanidade me surpreende. Muita gente passou as últimas duas semanas com medo de que o mundo acabasse no dia do eclipse total do Sol. O último deste século, disseram incontáveis vezes as reportagens dos jornais e programas de televisão. E daí? O último deste século para o calendário ocidental. Na contagem do tempo chinês, o mundo já ultrapassou o ano 3000.
E justamente um eclipse, algo tão natural como as chuvas de verão e a seca no inverno brasiliense. Um lindo espetáculo da natureza, sem dúvida, como um pôr-do-sol ou um arco-íris, mas um fenômeno absolutamente corriqueiro na vida do Universo. Foi tratado como as antigas civilizações tratavam outras manifestações da natureza. Como se fossem obra de deuses ou de demônios. As mesmas pessoas que andam de avião como se fosse a coisa mais natural do mundo e riem dos medrosos curvaram-se à mais tola das crendices.
Quando o homem ainda desconhecia os princípios da Física, era compreensível que atribuísse os fenômenos da natureza a forças estranhas. Mas hoje, quando a humanidade já desvendou e desafiou boa parte dessas forças, acreditar na possibilidade de um fim do mundo anunciado pelo eclipse equivale à voltar ao tempo das cavernas. Nem digo à Grécia Antiga, pois já naquele período havia cientistas e pensadores duvidando dos poderes mágicos da natureza.
Muita bobagem rolou nos dias que antecederam o eclipse. Muito tempo foi gasto em discussões fúteis sobre profecias e catástrofes mundiais. O homem inventou o avião e aprendeu a voar, mas ainda se comporta com o mesmo barbarismo do Homo Sapiens, o nosso ancestral mais antigo. Aquele mesmo, parente próximo dos macacos.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo





