NO TAPETÃO - Falta de profissionalização atrapalha o futebol brasileiro
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domingo, 22 de dezembro de 2013
Lucio Flávio Cruz<br> Reportagem Local 
Na esteira dos julgamentos que modificaram a classificação final do Campeonato Brasileiro da Série A, após o encerramento da competição, levantou-se a discussão sobre a profissionalização de todos os setores dos clubes de futebol do País e a necessidade de regras, por parte da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), para se evitar a escalação de jogadores irregulares e proteger a imagem do "produto" futebol brasileiro.
A punição à Portuguesa e ao Flamengo repercutiu negativamente na imprensa nacional e internacional, que destacou ainda o fato do Brasil ser a sede da próxima Copa do Mundo. Com quatro pontos perdidos, a Lusa foi rebaixada a Série B e o Fluminense, que caiu no campo, vai permanecer na primeira divisão em 2014. O time paulista recorreu da decisão ao Pleno do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) e um novo julgamento foi marcado para o dia 27.
Para o presidente da Associação Brasileira dos Executivos de Futebol (Abex Futebol), Ocimar Bolicenho, um dos problemas para a profissionalização das nossas entidades esportivas é a forma de administração dos antigos dirigentes. "As nossas entidades clubísticas são centenárias, foram formadas por grupos de amigos amadores. Os clubes precisam investir em profissionais devidamente preparados e dar a esses profissionais uma verdadeira autonomia para se trabalhar", aponta.
A Abex Futebol, fundada em 2011, ampara profissionais do futebol das áreas de gerência e coordenação e executivos. A entidade tem 120 associados cadastrados.
Qual o tamanho do prejuízo do produto 'futebol brasileiro' provocado pelas modificações da classificação do Campeonato Brasileiro da Série A depois dos julgamentos no STJD?
Mancha bastante a imagem do nosso futebol. Demonstra claramente que o futebol do Brasil ainda não chegou à era do profissionalismo. Muito embora a aplicação da lei, no caso da retirada de pontos, tanto no caso do Flamengo quanto da Portuguesa, foi por falhas administrativas dos próprios clubes. Agora, com certeza mancha e mostra ao mundo inteiro que o futebol brasileiro ainda não tem uma profissionalização desejada fora das quatro linhas.
Na prática, essa falta de profissionalização pode espantar patrocinadores e parceiros?
Sem dúvida, porque quem é que gosta de aplicar em um produto que não tem profissionalismo, seriedade, honestidade. Não que seja desonesto o que ocorreu, mas é uma coisa que mancha o futebol por ser uma decisão extracampo. Eu ouvi nos programas esportivos uma ideia muito boa. Se o erro é administrativo, a pena deveria ser administrativa. Ela não poderia modificar uma resultado técnico como foi o caso da Portuguesa, que acabou sendo rebaixada, pela inclusão de um atleta, administrativamente, irregular.
O futebol brasileiro movimenta milhões de reais por ano, os clubes gastam com salários altos para jogadores e treinadores. Por que ainda falta profissionalização nos outros setores dos clubes de futebol do País?
Nós temos um problema crônico. As nossas entidades clubísticas são centenárias, foram formadas por grupos de amigos amadores. Até o início do ano 2000 o futebol no Brasil sempre foi tocado desta maneira. Eram aqueles apaixonados pela bandeira, pelas cores do clube, que, na verdade, definiam seus caminhos e, pelo que mostram os números, muitas vezes, irresponsavelmente. Como é um processo novo é óbvio que a maior barreira que vamos enfrentar é mudar a cultura de que o futebol brasileiro ainda pode ser administrado e comandado por dirigentes amadores.
E quais são os caminhos para essa mudança?
Os caminhos são os clubes investirem em profissionais devidamente preparados e dar a esses profissionais uma verdadeira autonomia para se trabalhar. Hoje o que está ocorrendo é que os clubes estão admitindo esses profissionais, mas quem continua mandando são os diretores amadores. O que faz com que, efetivamente, a vontade deles, que é determinada pela paixão, seja na verdade mais forte que os pontos apontados pelo profissional, que trabalha com a razão. A barreira principal vai ser transpor esta situação porque o profissional, na verdade, não veio tomar o lugar do dirigente esportivo, ele veio para ser um cumpridor daqueles objetivos que o clube determina. Mas, como o futebol é um meio de muita vaidade, os dirigentes acham que os profissionais vão tomar o seu lugar e eles vão perder a chance de estar nos holofotes que o futebol proporciona para todo mundo.
A CBF, que é a responsável pelo futebol no País, cuida mal do seu produto?
Eu acho que sim. Até porque, na verdade, a CBF não tem muito poder de ação sobre os clubes. Os clubes são entidades autônomas, assim como a CBF também é, por isso não pode haver nenhum intervenção do poder público. Eu acho que essa autonomia que se dá às entidades, tanto as de administração, no caso da CBF, como as de práticas esportivas, no caso dos clubes, é um fator de dificuldade para se implantar o profissionalismo.
A CBF não deveria criar mecanismos, profissionalizar setores para evitar que casos como o de escalação irregular de jogadores fossem evitados?
Sem dúvida nenhuma. A CBF poderia ter duas atitudes muito simples. Exigir o fair play financeiro, ou seja, os clubes só podem gastar aquilo que efetivamente arrecadarem e isso é muito fácil de controlar. Existem países onde se o clube não apresenta uma disponibilidade financeira, orçamentária, para disputar uma competição, ele é impedido de disputar. Isso a CBF já poderia fazer. E a segunda hipótese é a de evitar este tipo de problema. Ela mesma poderia emitir a cada final de rodada os jogadores que estão proibidos de atuar no próximo jogo. Não deixando só para os clubes este tipo de controle. Se a CBF informasse quais os jogadores que não podem de atuar em uma determinada partida este tipo de situação não iria se repetir.
É uma medida básica, já que existem até algumas competições amadoras que possuem este tipo de controle. Até porque é uma coisa muito simples. Vai chegar para assinar a súmula e está lá registrado que tal jogador não pode participar da partida, porque está suspenso. Se evita todos os problemas que estamos vendo acontecer e que ferem o sentimento da opinião pública. Porque parece que foi uma coisa montada, muito embora não tenha sido, mas parece uma coisa que foi montada para favorecer um time do Rio de Janeiro.
Falta vontade política dos dirigentes dos clubes e da CBF para profissionalizar realmente o futebol? Ou o pensamento é não se profissionalizar mesmo para permitir certas manobras fora de campo?
Quanto mais bagunçado melhor, né. É mais ou menos por aí. Acho que falta realmente vontade. O que precisa mudar é o próprio sistema eleitoral da CBF. O colégio eleitoral da CBF hoje são as 27 federações e os 20 clubes da série A e, infelizmente, os clubes, em nenhum momento da história do futebol brasileiro, falaram a mesma língua. Se os clubes se unissem e falassem a mesma língua, com certeza a CBF teria outro tipo de atitude. Mas como ela sabe que pode jogar com o conflito entre os clubes, ela sempre vai ter o poder na mão e o monopólio do futebol, ou seja, ela vai fazer este tipo de alteração se a ela interessar, caso contrário fica tudo como está.
Todos esses casos podem ser um ponto de partida para a atualização da justiça desportiva no Brasil e para rever a forma de atuação do STJD e dos Tribunais de Justiça Desportiva (TJD)?
Eu acho que não é a lei que está errada. O que está errado é o controle. Se a CBF emitir um relatório dos jogadores que podem atuar em uma determinada partida, este artigo estaria absolutamente nulo, porque ninguém seria julgado por ter escalado um jogador irregular. Isso seria feito de forma preventiva e não punitiva. É óbvio que se isso acontecer o artigo se torna obsoleto e será suprido do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD).
Iniciativas como a Abex Futebol e o Bom Senso Futebol Clube (movimento liderado por jogadores, que reivindica melhorias estruturais, diminuição de número de jogos por ano e fair play financeiro dos clubes) podem colaborar para a profissionalização do futebol brasileiro?
Entendo que sim, pois são entidades que querem o bem do futebol. Vão sofrer pressões daqueles que não querem que o futebol se organize, vão sofrer retaliações daqueles que não têm interesse em que o futebol se torne um produto sério e honesto. Mas eu acho que este tipo de associação de pessoas é que vai fazer com que o futebol brasileiro entre no rumo certo.
Diante de tudo isso, como fica o sentimento do torcedor?
Na verdade fica prejudicado. Eu não gostaria de ver, como torcedor, o meu time ganhar ou perder uma posição no tapetão. Ninguém gosta disso. Pode se ver aí pela reação da opinião pública totalmente contrária ao que aconteceu. Infelizmente o erro houve, mas se a CBF tivesse um plano de controle isso seria preventivamente resolvido sem nenhum tipo de problema.


